imprensa ao domingo

29 03 2010

Na modorra de fim do fim-de-semana, domingo ao fim de tarde a tentar enganar o tempo que resta até ao início da rat-race semanal, o olhar, incapaz de se fixar por mais do que dez segundos sobre qualquer que seja o tema ou alvo, passa embaciado pelas revistas dominicais dos jornais diários. Na do Correio da Manhã, em quatro páginas de foto-reportagem, mais precisamente na 42, surge na fotografia 7 a legenda “Leitura, O jornal mais lido em Portugal tem lugar cativo em São Bento”, na pantalha de um dos polémicos computadores de propriedade pública e uso privado dos deputados, em versão PDF. Provavelmente, estas serão das últimas fotografias tiradas aos computadores dos nossos representantes na Assembleia da República, tendo em conta a polémica que se instalou a propósito da devassada privacidade. Polémicas à parte, que não são mais do que pequenas baforadas a juntar à cortina de fumo que separa as manobras e interesses dos representantes das necessidades e anseios dos representados, a fotografia deixou-me com uma ponta de curiosidade e gostaria de ter a possibilidade de a ver satisfeita: Qual será a necessidade de um deputado ter instalado no seu computador o Adobe Acrobat Profissional? Tendo eu um percurso já longo no sector das artes gráficas e da edição, onde este software é amplamente usado, pergunto-me se os senhores deputados serão todos eles editores de documentos em PDF a nível profissional, a ponto de exigir um software cuja licença custa algumas centenas de euros, ou se a fotografia captou por grande coincidência a única máquina que o tem instalado. Não estou a ver os senhores deputados a terem necessidades de edição gráfica aprofundadas, vejo-os quando muito a editarem documentos de processamento de texto, folhas de cálculo, apresentações e, muito provavelmente, nem serão os próprios a fazê-lo. Sabendo da preferência do Governo em manter a ligação com a Microsoft, empresa bastante necessitada do investimento dos milhões com que o Estado português faz questão de apoiar, admiro-me que não haja ninguém que saiba naquela casa que as aplicações do Office conseguem gerar documentos em PDF. E mesmo que não existisse essa possibilidade, softwares livres de criação de documentos no dito formato é coisa que não falta… O nosso Governo é realmente um benfeitor das empresas de software, e aparentemente a Adobe é outras das beneficiadas. Fazendo as contas aos actuais 230 deputados com assento parlamentar e multiplicando esse número pelos € 559,00 (excluindo IVA) que custa a licença na loja online, obtém-se a bela soma de € 128.570,00 para que os digníssimos possam profissionalmente manter-se actualizados com as últimas da imprensa. A não ser que no computador fotografado tenha sido instalado um software não licenciado, mas essa é uma hipótese em que não me atrevo acreditar…

Na mesma revista, umas quantas páginas antes, na 8, uma pequena chamada sobre a depressão que está a afectar a comunidade canina na Grã-Bretanha: “A depressão, uma doença caracterizada por tristeza prolongada, está a afectar os cães, razão pela qual o Reino Unido decidiu disponibilizar a venda de antidepressivos caninos.” Pergunto-me se haverá alguma mensagem subliminar no facto de os editores terem decidido ilustrar o pequeno texto com a fotografia de um cão-de-água português.

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