Escreve-se. I

9 05 2010

Estupidez, por José Manuel dos Santos, in Impressão Digital, Actual, Expresso, 8 de Maio de 2010

Os deuses, cruéis quando não são ausentes, nisto foram bondosos para os homens. Deram aos que têm génio o conhecimento de o terem, mas privaram os medíocres da consciência da sua mediocridade. Por isso os ouvimos dizer tudo o que os mostra nulos e vazios, como se estivessem a dar a solução para o problema e o remédio para o mal. Afinal, no ser isto assim, talvez esteja a prova mais cruel da crueldade dos deuses: recusam a estes cegos a escuridão que lhes revelaria a cegueira, trocando-a por uma luz falsa que lhes falseia os próprios olhos.

Penso nisto muitas vezes. Penso nisto, agora, quando olho o desconcerto do mundo e o concerto que lhe querem dar os que o desconcertaram. Aquilo que mais assusta nestes dias em que tudo corre mal, ameaçando ainda correr pior nos próximos, é o rio de lugares-comuns e frases feitas que, a toda a hora, desagua sobre nós. Passámos ao regime de verdade fundado na “tautologia ontológica”, aquele que garante a glória de quem diz, com voz profunda: “O mundo é o mundo”, “Uma crise é uma crise”, “A economia é a economia”; “A Europa é a Europa”, “Portugal é Portugal”. Ou que louva a imaginação e a originalidade dos que afirmam: “Se não fizermos o nosso trabalho, ninguém o fará por nós”, “Não é possível continuarmos a viver acima dos nosso recursos”, “O Estado não pode consumir a riqueza criada pela sociedade”, “Não devemos gastar hoje o que as gerações futuras vão ter que pagar”, “Temos que crescer mais”.

O mais perturbador nesta crise feita de muitas crises é a estupidez do discurso sobre ela. Essa estupidez que fala e a estupidez que faz; a estupidez doutoral e a estupidez analfabeta. Há a estupidez imoral e a estupidez moralista; a estupidez irresponsável e a estupidez grave. Há a estupidez culpada e a estupidez inocente; a estupidez delirante e a estupidez sensata. Há a estupidez enciclopédica e a estupidez especializada; a estupidez juvenil e a estupidez senil. Há a estupidez individual e a estupidez colectiva; a estupidez tola e a estupidez espertalhona. Todos estes tipos de estupidez têm em comum cinco princípios. Primeiro: o que eu digo não importa, o que importa é ser eu a dizê-lo. Segundo: o que eu digo é um íman que repele qualquer partícula de pensamento. Terceiro: o que eu digo é tão estúpido que torna inverosímil que o seja tanto. Quarto: o que eu digo é tão banal que toda a gente pode estar de acordo. Quinto: o que eu digo salva.

Esta estupidez heteronímica não compreende que a doença não se cura com aquilo que a causou. E o que a causou foi a mistura de estupidez, contrafacção, marketing, competição, tecnologia, corrupção, lucro, violência e narcisismo, que grita:”Tens de ganhar, tens de destruir o outro, tens de ser o primeiro em tudo. Dinheiro é poder e poder é futuro. Se não tiveres muito dinheiro e muito sucesso, és um falhado.”

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