Criascritividade

No fim de semana de 18 e 19 de Outubro de 2008, participei pela primeira vez numa actividade de Escrita Criativa. Foi um workshop organizado por iniciativa do Espaço das Aguncheiras, em Sesimbra, com o apoio da Câmara Municipal, que se realizou na Fortaleza de Santiago. A duração foi de 9 horas, dividivas entre a manhã e a tarde de Sábado e a tarde de Domingo. Contou com a presença de oito participantes, todos já batidos nas lides da escrita e interessados em aprender mais qualquer coisa e trocar experiências e ideias. A moderação dos trabalhos esteve sob a responsabilidade de João Paiva, membro e actor do colectivo do Espaço das Aguncheiras e contou com a presença de São José Lapa, sua mentora, além de um pequeno grupo de actores, reunião que proporcionou uma boa tarde de troca de ideias e leitura dos trabalhos finais dos participantes.

Seguem-se os textos que me escorreram naqueles minutos de exercícios propostos. As discussões e as conversas ficaram na memória…

PONTO DE VISTA

Um dos elementos essenciais da escrita é o ponto de vista, que cria no leitor a identificação com o ponto à volta do qual a narrativa está organizada. Foi proposto, como ponto de vista, o de uma aspirina efervescente a cair dentro de um copo de água. O exercício teve um tempo limite de duração de cinco minutos.

Olha-me que raio, mas onde é que me largaram? Que falta de cuidado comigo. Compram-me e não lêem sequer as instruções que não me podem deixar em locais húmidos… Húmidos!…, chamar húmido a este charco é pouco, raios partam o cefaleico… A sorte é que mesmo desfeita em água turva não perco as minhas propriedades e vais ver como é que elas te mordem quando me deitares à boca. Ai vou-te ao goto, ai vou vou, hás-de tossir tanto com falta de ar que a tua cabeça até estala. Estragas-me a t-shirt branca a dizer BAYER que ainda esta semana comprei na feira de Carcavelos e esperas que te acabe com as dores de cabeça. Acabo o tanas! Olha, lá vem ele, já lhe vejo o chumbo no molar e as goelas a brilhar.

LISTA DE PALAVRAS

O segundo exercício proposto foi a utilização de listas de palavras. Na tentativa de centrar um texto narrativo sobre um determinado tema, o escritor pode começar por fazer uma pesquisa prévia, escolhendo uma série de palavras que dêem a cor pretendida ao objectivo do que está a ser escrito. Ou então fazê-lo como simples exercício. Foram propostas as seguintes cinco palavras — Cor, Textura, Materiais, Qualidade, Utilidade – para um tempo limite de cinco minutos.

A cor branca da cal nas paredes à volta esconde…, não, não esconde, disfarça talvez ao olhar de um observador desatento, a textura arenosa do tempo sobre as pedras amontoadas segundo uma lógica arquitectónica militar. A qualidade dos materiais deixa sentir o bater das ondas a toda a volta da fortaleza e, se olhasse pela janela atrás de mim, conseguiria perfeitamente ver o mar a entrar e a sair por onde mesmo agora ouvi o som do carro a abafar as vozes das mulheres nas suas voltas de sábado de manhã, na lida do lar enquanto eu me debato com a utilidade da prosa quando comparada com as necessidades do corpo que elas maternalmente satisfazem, crianças pela mão e queixumes sobre os preços.

SENSORIALIZAÇÃO

Tendo em conta que vivemos num universo em que a visão esmaga todos os outros sentidos, a proposta foi a escrita de uma pequena narrativa, em dez minutos, que utilizasse apenas os restante quatro sentidos. Foi sugerido um tema de fortes referências visuais, uma praia, a areia e um encontro com um pescador.

O cheiro do mar entra pelas narinas como só de manhã é possível acontecer. É bom ter a pele arrepiada pelo toque do nevoeiro que se infiltra pela flanela e me entra por cada um dos poros. O sol, de certeza que já deitou um raio lá ao longe para cima da linha do horizonte, que sei que está como sempre nas minhas costas, bêbeda como um marinheiro em terra firme. A areia agarra-se à pele entre os dedos dos pés, molhada, e sei que quando sair, não a vou sacudir para conseguir assim levar a praia comigo para casa subindo pelo elevador do prédio como se este fosse uma grua no cais da estiva escondido para lá da curva da encosta penteada pelo vento e misturando o cheiro da sua terra que escoaça sem asas com o do mar. Pena não poder trazer as redes do pescador agarradas às pernas, quando tropecei nelas e a voz do tempo em que havia pescadores me disse:”Eh lá, amigo, tenha cuidado, ainda se aleija!…” e a consistência líquida da aguardente veio com ela até aos meus ouvidos. Deve ter-se inclinado, pois logo a seguir senti-lhe a mão de coral que me ajudava a voltar a ter pé e a cumprimentar-me ao mesmo tempo. “Não é deste tempo”, conclui eu, “que hoje em dia ninguém estende a mão a um desconhecido, e se eu ando a estas horas por aqui a sonhar pela praia, o pescador só deve cá morar como parte do cenário e é talvez um espírito do tempo da pesca artesanal.”

DIÁLOGO

Como TPC e trabalho final, foi proposto o tema do sexo seguro e da igualdade de oportunidades, a ser desenvolvido com base num diálogo, destinado a ser lido no segundo dia de workshop. Tal como aos temas anteriores, foi sugerida a sua escrita num tempo limite entre 20 a 30 minutos.

– A verdade é que acabas por nunca saber para que é que vale a pena andar a penar nesta vida quando no fim nunca vais perceber o sentido das coisas. Não há causa e efeito. Pelo menos, não lhes consegues encontrar o sentido.

– Olha lá vem o Chico no carro todo cheio de tuning.

– O que é que nos andianta ficar a pensar que vamos ter a recompensa sabe-se lá quando, quando não és capaz de ter a certeza de que realmente valeu a pena. Afinal vais estar morto e isto tudo vai estar esquecido.

– Horas de ir ter com a dama a casa da velha…

– Andar para aí jogado e atirado para o lado, não és capaz de ter controlo sobre a tua própria vida, e por mais que te esforces por fazer tudo bem feito, há sempre alguém, há sempre um palerma qualquer que aparece, sabes lá de onde é que foi parido, e lixa-te os planos todos.

– Bela vidinha…

– É como uma personagem de uma estória que uma vez li, que parava a sua acção no meio de um apeadeiro e se punha a pensar na sua própria vida e a compará-la com o que tinha sonhado quando era adolescente, esperava ainda pelo seu primeiro amor, e crescia como uma rapariga do campo a sonhar com a cidade e a vida que lhe daria aquilo que ela não tinha e que o pai desaparecido e a mãe que esgravatava todos os dias não podiam dar. E lá estava ela no apeadeiro à espera de um tipo que ela não tinha a certeza se iria aparecer e se sequer iria ainda lá estar ao pé dela no dia seguinte, sentia-se a secar como uma ameixa madura antes da época e a contar na palma da mão as contas do que a vida lhe tinha dado em troca dos seus sonhos. E estava ela naquela modorra ali parada com a cabeça a fervilhar e o coração a disparar-lhe sem ela perceber porquê quando aparece o tipo a caminhar na sua direcção, e quem lê também não fica a saber se esse irá ser diferente dos outros, e nesse momento sai-lhe da boca sem quase dar por isso, e o tipo já lá está suficientemente perto para ouvi-la a dizer “É isto que a vida é. Nada mais do que a substituição do sonho.” E continuando a não dar por ele que chegava ao pé de si e abrandava o passo, a Alice não estava satisfeita com a conclusão que não lhe bastava e emendou-a “Mas se calhar é isto que o sonho tem para me dar.” e então deu por ele e surpreendeu-se por estar acompanhada sem ter dado por isso.

– Olha a Carlita que aí vem…

– E aquilo que acontece é que passamos a vida a pensar que nada do que temos é seguro…

– Olá meninos…

– Sent’aí…

– … enquanto olhamos para as vidas dos outros que parecem tão perfeitas como um cenário em cima do palco…

– Onde?

– Aqui, no passeio…

– Olá Paulo…

– … sem no entanto conseguirmos ver ou sequer lembrarmo-nos das traves, pregos e cordas escondidas na parte de trás que seguram a perfeição da imagem que vemos ao longe. mas se nos aproximássemos para ver de perto o que tanto ambicionamos, veríamos que a parede dos fundo não está segura ao chão, tem uma carrinho com rodinhas malucas, e o papel de parede está a descolar-se nos cantos…

– Helloooo…

– E passa-se a vida a pensar nisto, e eu estou sempre a pensar nisto, porque é que eu estou sempre a pensar nestas porcarias todas e não aproveito o que a vida tem para oferecer? E porque é que eu não sou um grunho igual a qualquer outro que quer é estar sossegado e gozar a sua vidinha e que me diria, tal como me dizem tantos com o olhar “É pá, tu és é maluco, deixa-te lá dessas tretas!”, porque esses é que sabem aproveitar a vida e as oportunidades que aparecem sem se chatearem com o que está por trás e ninguém os lixa, enquanto eu passo a vida lixado a deixar, provavelmente, fugir as oportunidades ou a espantá-las ao tentar levantar-lhes as saias para ver primeiro o que é que lá têm escondido.

– Iuu’uu…

– Mas qualquer gajo com dois dedos de testa…

– Dois dedos,…

– … é capaz de ver isto, e no entanto eu pergunto-me por que é que ninguém parece ver.

– … onde é que eles já vão …

– Por que é que eu hei-de ter de fazer as coisas da mesma maneira que os outros e ser igual a toda a gente?

– …, três ou quatro, além da clareira…

– Parece que quer ser tudo igual…

– … o que significa que supostamente deveria estar a ficar mais esperto, mas mesmo assim também não sei. A verdade é que não sei se ficando mais velho acabo por saber mais do que antes, e tendo cabelo ou ficando careca não tem nada a ver com nada. Já dizia o outro, só sei que nada sei!, quem era o gajo?

– Adeus Paulo.

– És um lírico. Lixa-me estar sempre a ouvir estas tangas. És um filósofo das dúzias…

– Devia ser poeta…

– Não consigo perceber qual é que vai ser o resultado desta manada toda…

– Tchau, meninos…

– Olha, já lá vem o gajo outra vez. G’anda música qu’o motor faz…


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