OtoEmissões

Otoemissões, sons transmitidos ao aparelho auditivo para avaliar o seu grau de sensibilidade auditiva, definição que, no sentido clínico, se esgota na capacidade física de transmissão e recepção de ondas sonoras. Mas o ar, meio através do qual o som se propaga, não transporta consigo a infinita e invisível informação sensorial que as ondas sonoras transportam dentro de si, organizadas enquanto meio expressionista, destinadas a estimular sensibilidades, despertar sentimentos e alimentar espíritos. As otoemissões, servindo-se do canal auditivo, chegam à alma do ser e transformam o ser do ser que se deixa fecundar por revelações de caminhos desconhecidos. As otoemissões são cantos encantados de sereias,  álcoois que embriagam e pedem por mais e drogas que embalam no êxtase da fruição e da ânsia por mais…

Não foi planeado, mas enquanto anoto estas palavras de introdução ao que eu espero ser a escrita da minha adição à música, dou comigo a ouvir o Lamb Lies Down on Brodway, uma das mais antigas referência musicais da minha vida – teria talvez uns catorze ou quinze anos quando o ouvi pela primeira vez com ouvidos de quem ouve música, e nessa primeira audição reconheci a abertura da primeira música que dá nome ao álbum (será que há muita gente a dizer álbum *, referindo-se a uma colecção de músicas?) de um programa radiofónico domingueiro matinal, um 70×7 do éter perdido na minha imberbe memória -, referência essa que surgiu como figura paternal da banda que me transformou de mero ouvinte para um leitor de música, os Marillion. Digo leitor porque foi a música que me passou para dentro das palavras e das histórias das suas letras tornando-me num amante da leitura, da literatura e da escrita. No entanto, este é um assunto a desenvolver noutras escritas que justificam o tema das otoemissões, das estórias, das músicas, das histórias dentro das músicas e das histórias de onde vêem as músicas.

Um exemplo do que acabo de dizer sobre as otoemissões presentes na música pode ser dado no álbum que ainda estou a ouvir (neste momento estou a ouvir o Lado A do Disco 2, mais uma coisa que talvez já não haja muita gente a lembrar-se do que é, embora eu o ouça no computador, as músicas têm ainda em si a marca das estrias originais onde as ouvi pela primeira vez). The Lamb Lies Down on Brodway é a história de Rael, um porto-riquenho algo delinquente que, procurando o seu irmão John, cai num submundo onde se depara com os seus fantasmas e monstros interiores, busca essa que é a de si mesmo e da sua personalidade fragmentada, tendo como pano de fundo a cidade de Nova Iorque e a sua esmagadora cultura urbana. Desde o início, a música deste álbum que mais me fascina até hoje, é Fly on a Windshield, que marca o ponto em que Rael é mergulhado nas entranhas da cidade e de si mesmo, e o denso instrumental hipnótico que evolui num crescendo de tensão sempre me arrepiou ao ponto de sentir uma espécie de transe que me transporta até ao limiar da percepção da minha própria (ir)racionalidade. É um exemplo, mas acho que é ilustrativo da capacidade transportadora e catalisadora de (auto-)descoberta da música.

* Álbum, termo que designava uma colecção de discos de 78 rotações, até finais da década de 40. A indústria musical, estando limitada a este meio, lançava os trabalhos dos músicos como álbuns de vários discos reunidos numa só edição, equivalentes aos LP que viriam a surgir no início da década de 50, com o surgimento dos discos a 33 1/3 rpm.

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