Esta é a Beat Generation

Este artigo foi publicado a 16 de Novembro de 1952, na The New York Times Magazine, por John Clellon Holmes, e foi a primeira tentativa de definição da Beat Generation nos media. O artigo foi encomendado ao autor por Gilbert Millstein (que viria a escrever a crítica a On the Road, em 1957) na sequência da publicação do seu primeiro livro, “Go”, no ano anterior, onde a expressão surgia algumas vezes, e que foi a primeira obra literária a centrar-se sobre o grupo que se encontrou entre o campus da Universidade de Columbia e Times Square, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Lucien Carr, Herbert Huncke, Gregory Corso, entre outros.

Há alguns meses, uma revista de tiragem nacional publicou uma história sob o título de “Juventude” e com o sub-título “A minha mãe está lixada comigo”. Dizia respeito a uma rapariga californiana de 18 anos que foi apanhada pela polícia a fumar marijuana e queria falar sobre o assunto. Enquanto um repórter tomou nota das suas ideias na linguagem actual da “erva”, alguém tirou uma fotografia. Tendo em conta a sua certeza de que ela fazia parte de uma totalmente nova cultura em que uma entre cada cinco pessoas é utilizadora, foi uma fotografia arrebatadora. No rosto pálido, atento, com o seu olhar suave e boca inteligente, não existia vestígio de corrupção. Era um rosto que só poderia ser considerado criminoso através de um grande esforço de integridade. A sua única queixa parecia ser: ”Porque é que não nos deixam em paz?” Era o rosto de uma geração batida (Beat Generation).

Aquele rosto jovem e limpo tem aparecido regularmente nos jornais desde a guerra. Perante um juiz num tribunal do Bronx, acusado e julgado pelo roubo de um carro, olhou de frente para a câmara com um risinho e sem culpa. O mesmo rosto, com uma inclinação mais séria, fitou-nos a partir das páginas da Life Magazine, em representação de uma turma finalista de ex-Fuzileiros, e disse que, tanto quanto podia acreditar, o pequeno negócio estava morto, e que tencionava tornar-se uma confortável peça na maior sociedade anónima que pudesse encontrar. Um pouco mais jovem, um pouco mais surpreendido, era o mesmo rosto que os fotógrafos capturaram no Illinois quando o primeiro clube para não-virgens foi revelado. O jovem publicitário, encostado num bar na 3.ª Avenida, a tomar uma bebida para descontrair, e o energético corredor de carros de Los Angeles, que joga à roleta-russa com uma carripana, estão separados apenas por um continente e alguns anos. Eles são os extremos. Entre eles caiem as secretárias pensando se devem dormir já com os seus namorados ou esperar; os mecânicos na treta com a malta ou a sair para Detroit se lhes der na veneta; as modelos estudadamente a atirar com nomes numa festa. Mas o rosto é o mesmo. Esperto, equilibrado, realista, desafiador.

Qualquer tentativa para dar nome a uma geração é frustrante, mas ainda assim a geração que atravessou a última guerra, ou que pelo menos pôde tomar um copo assim que acabou, parece possuir uma qualidade uniforme e geral que exige um adjectivo… As origens da palavra “beat” são obscuras, mas o significado é suficientemente claro para a maioria dos americanos. Mais do que simples enfado, implica o sentimento de ter sido usado, de estar crú. Envolve uma espécie de nudez de espírito, e, em última análise, da alma; o sentimento de estar reduzido à primitividade da consciência. Em suma, sem qualquer dramatismo, significa estar entre a espada e a parede de si próprio. Um homem está beat quando chega à falência e junta a soma dos seus recursos num simples algarismo; e a jovem geração tem-no feito continuamente desde muito nova.

Os seus membros têm uma individualidade dinstinta, sem necessidade de boémia ou excentricidade imposta para a expressar. Criados durante as difíceis circunstâncias de uma dura depressão, desmamados durante o despertar colectivo de uma guerra global, eles desconfiam do colectivo. Mas nunca foram capazes de afastar o mundo dos seus sonhos. As suas fantasias de infância habitavam a meia-luz de Munique, o pacto Nazi-Soviético, e o eventual apagão. A sua adolescência foi passada num turbilhão de fundos de guerra, trocas de turnos, e mobilizações de tropas. Eles cresceram para a independência em pontões, em fábricas de gin e USO’s(1), em chegadas depois da meia-noite e partidas antes da madrugada. Os seus irmãos, maridos, pais ou namorados apareciam mortos um dia no lado de lá de um telegrama. No tremor dos quatro cantos do mundo, ou na cidade natal invadida por fábricas ou guardas solitários, eles experimentaram intimamente o nadir e o zénite da conduta humana, e tiveram pouco tempo para muito do que aparece entre os dois. A paz que herdaram era apenas segura até ao próximo cabeçalho. Era uma paz fria. O seu próprio desejo de liberdade, e a habilidade de viver num ritmo mortal (para o qual a guerra os ajustou), levou aos mercados negros, ao bebop, narcóticos, promiscuidade sexual, traficância, e Jean-Paul Sartre. O sentimento de estar batido (beatness) instalou-se mais tarde.

É uma geração pós-guerra, e, num mundo que parece marcar os seus ciclos através das suas guerras, é já comparada com aquela outra geração do pós-guerra, que se intitulou de “perdida” (Lost Generation). Os Loucos Anos Vinte, e a geração que fez a sua loucura, estão a atravessar um revivalismo sentimental, e a comparação tem o seu valor. A Geração Perdida foi descoberta num carro desportivo, rindo histericamente porque nada tinha mais nenhum significado. Emigrou para a Europa, na dúvida sobre se estaria à procura do “futuro orgiástico” ou a fugir do “passado puritano”. Os seus símbolos eram a garçonne, a garrafa de bolso com whiskey martelado, e uma atitude de frivolidade desesperada tão bem expressa pela frase: ”Ténis, alguém?” Foi capturada no romance de desilusão, até quando mesmo isso se tornou em ilusão. Todo o acto no seu drama de perdição era um acto trágico ou irónico terceiro acto, e “A Terra Devastada” de T.S. Elliot foi mais do que o testemunho do beco sem saída de um poeta atento. A atmosfera que perpassava pelo poema era quase um imaterial sentido de perda, através do qual o leitor sentia imediatamente que a coesão das coisas tinha desaparecido. Foi para toda uma geração, uma imagem que expressava, com terrível precisão, a sua própria condição espiritual.

Mas os rapazes à solta dos nossos dias não estão perdidos. Os seus rostos corados, muitas vezes zombeteiros, sempre intensos eludem o mundo, e este parecer-lhes-ia uma impostura. Porque a esta geração falta aquele ar eloquente de pesar que tornou em acções simbólicas tantos dos feitos da Geração Perdida. Mais, o repetido rol de ideais estilhaçados, e os lamentos sobre a lama nas correntes morais, que tanto obcecaram a Geração Perdida, não são motivo de preocupação para os jovens dos nossos dias. Eles tomam estas coisas como assustadoramente garantidas. Eles cresceram e foram criados no meio destas ruínas e já deixaram de dar por elas. Eles bebem para se “relaxarem” ou para ganhar “pica”, não para ilustrar seja o que for. As suas incursões pelas drogas ou pela promiscuidade partem da curiosidade, não da desilusão.

Apenas o mais amargo de entre eles chamaria a sua realidade de pesadelo e protestaria que tinha de facto perdido uma coisa, o futuro. Porque desde o primeiro momento em que tiveram idade suficiente para imaginar algum, esse tem estado sempre ameaçado. A ausência de valores pessoais e sociais é para eles, não uma revelação que faz estremecer o chão sob os seus pés, mas sim um problema que exige todos os dias uma solução. Como viver parece-lhes mais crucial do que porquê. E é precisamente neste ponto em que o publicitário e o corredor se encontram e o seu idêntico sentimento de estar batido (beatness) se torna significativo, já que, ao contrário da Geração Perdida, que estava ocupada com a perda de fé, a Beat Generation está cada vez vez mais ocupada com essa necessidade. Desta forma, é uma desconcertante ilustração da velha e garantida piada de Voltaire: “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo.” Não se contentando em lamentar a sua ausência, eles ocupam-se ao acaso a inventar-lhe totems por todos os lados.

Porque o pateta nihilista, que devora a auto-estrada a 150 à hora guiando com os pés, não é nenhum Harry Crosby, o poeta da Geração Perdida que planeou um dia levar o seu avião até ao sol porque ele não mais conseguia aceitar o mundo moderno. Pelo contrário, o corredor envia convites à morte apenas para a enganar. Está a afirmar a vida dentro de si sob a única forma que sabe, no limite. A rapariga de cara ansiosa, agarrada sob uma acusação de posse de drogas, não é uma daquelas “mulheres e raparigas aos gritos com os copos e drogas carregadas dos locais públicos”, sobre quem Fitzgerald escreveu. Em vez disso, com persuasiva seriedade, ela descreve o sentido de comunidade que encontrou na marijuana, que a sociedade nunca lhe deu. O publicitário, à meia-noite tão bêbedo como o seu par da Geração Perdida, provavelmente lê God and Man at Yale[2] durante a sua ressaca de domingo à tarde. A diferença é esta quase exagerada vontade de acreditar em qualquer coisa, nem que seja neles próprios. É uma vontade de acreditar, mesmo face a face com uma inabilidade de o fazer em termos convencionais. E isso fá-lo ser levado no sentido do excesso, qualquer que seja o caminho que tome.

O choque que as pessoas mais velhas sentem perante a visão desta Beat Generation é, num nível mais profundo, não tanto repugnância pelos factos, mas sim uma aflição pelas atitudes que os causam. Ainda assim, preocupadas por esta angústia, elas discutem ou legislam mais frequentemente de acordo com os factos do que com as atitudes. O leitor de jornais, estudando os olhos dos jovens toxicodependentes, só consegue encontrar um escape para o seu horror e desorientação nas exigências de que os passadores sejam levados à cadeira eléctrica. Os sociólogos, com uma preocupação mais académica, estão igualmente perturbados pelas legiões de jovens cuja maior ambição parece ser a de encontrar um começo seguro no seio de uma monolítica sociedade anónima. Historiadores contemporâneos expressam uma surpresa moderada perante a falta de movimentos organizados, políticos, religiosos, ou quaisquer outros, entre os jovens. Os artigos que escrevem recordam-nos de que cada um ser o seu próprio patrão e ser naturalmente gregário são dois dos nossos mais acarinhados traços nacionais. Por todo o lado, pessoas com moralidades bem arrumadas abanam a cabeça e questionam-se sobre o que se está a passar com a geração mais jovem.

Provavelmente não notaram que, atrás do excesso por um lado, e da conformidade por outro, reside aquela indiferença do esperar-para-ver que resulta do facto de ter de contar mais com a capacidade de resistência humana do que com a filosofia de vida. Não que a Beat Generation seja imune a ideias; estas fascinam-na. As suas guerras, tanto passadas como futuras, foram e serão guerras de ideias. Contudo, sabe que, no derradeiro e privado momento de conflito, um homem estará na realidade a lutar contra outro homem, não com uma ideia. E o mesmo se passa com o amor. É assim uma geração com uma maior facilidade em receber ideias do que a acreditar nelas. Mas é também a primeira geração em vários séculos para a qual o acto de fé tem sido um problema obsessivo, razoavelmente distanciado das razões pelas quais se tem uma fé ou não. Exibe por todos os lados, e num desconcertante número de facetas, uma perfeita ânsia em acreditar.

Apesar de ser certamente uma geração de extremos, incluindo nas suas fileiras tanto o HIPSTER como o jovem Republicano radical, não deixa de render a César (i.e., Sociedade) o que pertence a César, e a Deus o que pertence a Deus. Para o mais doido dos HIPSTERS, que mistifica o bop, as drogas e a noite, não existe nenhum desejo de estilhaçar a sociedade “quadrada” em que vive, apenas evitá-la. Subir a um caixote ou escrever um manifesto parecer-lhe-ia uma coisa absurda. Olhando para o mundo normal, onde praticamente tudo é uma “seca” para si, ele diz apesar de tudo: “Bem, é afinal a Forest of Arden. E mesmo assim consegue aguentar-se se se olhar bem.” Da mesma forma, o jovem Republicano, parecendo muitas vezes ter Babbitt (3) como o seu herói de culto, não é nem vulgar nem materialista, como Babbitt era. Ele conforma-se porque acredita nele como algo socialmente prático, não necessariamente virtuoso. Contudo, ambas as posições são o resultado de mais ou menos a mesma convicção – nomeadamente que o abismo sem valor da vida moderna é insustentável.

A variedade e extremidade das suas soluções são apenas uma indicação final de que, para os jovens actuais, não existe ainda um centro exterior à volta do qual eles possam, enquanto geração, concentrar as suas observações e aspirações. Não existe uma única filosofia, um único partido, uma única atitude. A falha da maioria dos conceitos morais e sociais ortodoxos em reflectir por completo a vida que conhecem é provavelmente a razão para isto, mas é por essa falha que cada pessoa se torna numa unidade ambulante e autónoma, forçada a ir de encontro, ou pelo menos fazer face, à sua maneira, ao problema de ser jovem num mundo aparentemente sem saída.

Mais do que qualquer outra coisa, esta é a razão responsável pela relutância desta geração em se nomear, pela relutância em se discutir enquanto grupo, às vezes relutância em ser-se a si própria. Porque deuses inventados invariavelmente desapontam aqueles que os adoram. Apenas a sua necessidade persiste, e é esta necessidade, esgotando um objecto após outro, que projecta a Beat Generation em frente para o futuro e a livrará um dia do seu sentimento de estar batido (beatness).

Dostoievsky escreveu no início da década de 1880 que “a Jovem Rússia não fala de outra coisa senão das eternas questões.” Com as mudanças adequadas, algo muito próximo disto começa a acontecer na América, de uma forma americana; uma reavaliação da qual os feitos e as atitudes desta geração são apenas os sintomas. Não há simples comparação entre uma geração e outra que possa medir efeitos com exactidão, mas parece óbvio que uma geração perdida, ocupada com a desilusão e tentando manter-se ocupada entre as pedras partidas, é poeticamente comovedora, mas não muito perigosa. Mas uma geração batida, movida por uma ânsia desesperada de crença apesar de incapaz de aceitar as moderações que lhe são oferecidas, é outra coisa bastante diferente. Trinta anos mais tarde, apesar de tudo, a geração sobre quem Dostoievsky escreveu encontrava-se em caves e fazia bombas.

Esta geração pode não fazer bombas; será com certeza intimada a largar algumas, e largar-lhe-ão algumas em cima, e este facto nunca está muito distante da sua consciência. É uma das pressões que a criou e desempenhará uma grande papel no que lhe irá acontecer. Há os que acreditam que em gerações como esta existe sempre a constante possibilidade de, concebida em desespero, ser trazida à vida uma grande nova ideia moral. Outros salientam a auto-indulgência, o desperdício, a aparente irresponsabilidade social, e discordam.

Mas a sua capacidade de se manter de olhos abertos, evitando ainda assim o cinismo; a sua crescente convicção de que o problema da vida moderna é essencialmente um problema espiritual; e a capacidade de uma sabedoria imprevista que têm aqueles que vivem no duro e vão longe, são atributos e valem a pena serem observados. E, de qualquer forma, aqueles rostos claros e desafiadores valem bem a pena.


(1) United Service Organizations: Organizações de apoio às tropas americanas mobilizadas fora dos Estados Unidos.

(2) God and Man at Yale: The superstitions of “Academic Freedom”: Romance de William F. Buckley, Jr. (1925-2008), publicado em 1951, sobre a forçada ideologia liberal imposta sobre os alunos da universidade, atacando-lhes a fé religiosa e a individualidade.

(3) Babbit: Personagem central da obra homónima de Sinclair Lewis (1885-1951), publicada em 1922, uma sátira sobre a cultura americana, a conformidade e a vacuidade da classe média. Babbit é um homem de meia idade, bem estabelecido como homem de negócios, mas infeliz, alheado da vida para lá do seu círculo íntimo.

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