Resumo biográfico

Esta tradução foi feita a partir do texto incluído nas páginas 39-40, de Heaven & Other Poems, publicado na 6.ª edição em 1992, pela Grove Press, de São Francisco.

O texto tem a data de 1957 e Jack Kerouac apresenta-se já como um bem sucedido escritor, depois da publicação de On the Road nesse mesmo ano. É possível perceber-se pelas suas palavras que o alcoolismo já estava instalado na sua vida como forma de fazer face à sua incapacidade de lidar com a fama e os ataques que esta lhe trouxe. No entanto, o alcoolismo já vem de trás, sendo possível lê-lo nas páginas de The Subterraneans, escrito em 1953.

A tradução é de 2008.

Resumo biográfico (Outono, 1957)

Quando eu tinha 4 anos o meu irmão Gerald tinha 9, no seu leito de morte várias freiras anotaram as suas últimas palavras sobre o Céu e foram-se embora com as notas, que eu nunca vi. Elas diziam que ela era um pequeno santo. O meu pai era tipógrafo, na sua tipografia eu fiz muitas vezes pequenos jornais de uma página, compondo-os e imprimindo-os numa impressora manual (Racetrack News).

Escrevi a minha primeira novela aos 11, num caderno de 5 cêntimos, sobre um rapaz orfão em fuga, navegando por um rio abaixo num barco… Frequentei a escola paroquial de meias pretas e calças (St. Louis de France e St. Joseph em Lowell, Massachusetts). No liceu, futebol, que me levou (via olheiros) para a Universidade de Columbia mas desisti do futebol para escrever (porque uma tarde, antes da concentração, ouvi a Quinta Sonfonia de Beethoven i tinha começado a nevar e eu soube que queria ser um Beethoven em vez de um atleta)… Primeira escrita a sério aos 18, influenciado por Hemingway e Saroyan e Whitman… Passei 3 anos no primeiro romance completo (1100 páginas, Town & the City) que foi cortado para 400 páginas pela Harcourt-Brace e consesequentemente reduzido de um poderoso (demasiado longo, cheio de vento, mas sincero) livro negro de tristezas para um “vendável” e vulgar romance… (Nunca mais editores para mim.) O meu pai morreu-me nos braços em 1946, sozinho em casa comigo, disse-me que cuidasse da minha mãe, o que eu faço. Depois de Town & the City, escrevi On the Road mas foi rejeitado (1951) e então passei 6 anos pela estrada fora eseuevendo tudo o que me veio à cabeça, saltando para comboios de carga, à boleia, trabalhando como guarda-freio, marinheiro, lavador de pratos em navios mercantes, centenas de biscates, vigia de incêndios. Dormi em montanhas e desertos no meu saco-cama. A minha actividade principal (sério) é rezar para que todas as criaturas vivas e coisas possam ir para o Céu. Está dito nos antigos sutras, que se esta oração e este desejos forem sinceros, o feito está já alcançado. Eu engulo essa.

Numa recente leitura no Village Vanguard fui universalmente atacado, mas tudo o que fiz foi estar ali de pé e ler o meu coração cá para fora, sem pensar com o meu aspecto ou no que alguém podia pensar, e estou satisfeito porque o lavador de pratos (um velho negro chamado Elton Stratton) disse: “Tudo o que eu quero fazer é apanhar dois quartos de whisky e ficar deitado na cama e ouvir-te a ler para mim.” Além disso, os músicos (Lee Koonitz, Billy Bauer, Wilbur Little) disseram que eu estava a “cantar” enquanto lia e que ouviam a música, e como eu me considero um jazzpoeta, estou satisfeito. O que a Inteligência diz faz pouca ou nenhuma diferença, já que eu sempre passei o meu tempo no bairro de lata ou em baiúcas de jazz ou com poetas loucos e nunca me chateei com o que a Inteligência” pensa. O meu amor pela poesia é o amor pela alegria.

Eu tenho deitado o meu coração cá para fora a escrever toda a minha vida, mas só agora é que ganho a vida com isso, e os ataques estão a vir em barda. Uma quantidade de gente está lixada e invejosa e amarga e eu apenas espero que eles possam ser ouvidos através de um programa editorial do tamanho da Rússia. Porque não é uma questão do mérito da arte, mas uma questão de expontaneidade e sinceridade e alegria, digo eu. Eu gostaria que toda a gente no mundo confessasse a sua vida à SUA MANEIRA e então teríamos algo para ler nos nossos dias de velhice, em vez das hesitações e dos sofismos dos “homens de letras” com faces indecisas que apenas alteram as palavras que o Anjo lhe trouxe…

Enquanto criança, fiz longos filmes Chaplinescos sozinho, desempenhando todos os papéis, filmes mudos: comecei a fazer isto aos 5. Agora escrevo-os.

Eu sou apenas um alegre contador de histórias e não tenho nada a ver com política ou esquemas e o meu único plano é a Velha Via Chinesa do Tao: “evita as autoridades.” Eu sou um  velho bebedolas alegre e amo toda a gente.

Jack Kerouac

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