Tristessa

Pequena novela sobre uma junkie mexicana, Tristessa, que Kerouac conhecia desde a sua estada na Cidade do México em 1952, com William Burroughs. Tristessa, cujo nome real era Esperanza Villanueva, era viúva de um conhecido de Burroughs, Tercero, e era o contacto de Bill Garver, Old Bull Gaines, (The Sailor, em Junkie, de Burroughs) com os dealers da cidade.

Tal como em relação a Alene Lee, Mardou Fox em The Subterraneans, Kerouac deixou-se cativar romanticamente pelo seu exotismo, mais do que física ou amorosamente. Tristessa encarnava inconscientemente uma existência budista, especialmente o princípio que Kerouac mais seguia, Toda a vida é sofrimento, ao mesmo tempo que era de uma devoção católica sem limites. Esta combinação de Budismo (que Kerouac descobrira alguns anos anos) com o Catolicismo surge a todos os momentos ao longo da narrativa, colocando lado a lado ícones cristãos com imagens e divindades do extremo oriente, ao ritmo da livre associação de ideias característica da sua escrita expontânea.

A história é composta por duas partes, Trembling and Chaste e A Year Later…, escritas respectivamente nos Verões de 1955 e 1956, em que Kerouac se instalou no prédio onde Bill Garver residia.

Os excertos que se seguem pertencem à primeira parte e foram traduzidos em 2007 e 2008.

1.ª Parte

Trémula e Casta

Estou no táxi com a Tristessa, bêbedo, grande garrafa de Juarez Bourbon whiskey na mala-registo do caminho-de-ferro mala de saque que me acusaram de levar do caminho-de-ferro 1952–aqui estou eu na Cidade do México, Sábado à noite a chover, mistérios, sonhos antigos de ruas laterais sem nome a rebobinar, a ruazinha onde passei por multidões de lúgubres Índios Vagabundos embrulhados em trágicos xailes o suficiente para te fazer chorar e pensar que viste facas a brilhar entre as dobras–sonhos lúgubres tão trágicos como aquele da Velha Noite do Caminho-de-Ferro onde o meu pai se senta de perna grossa no carro fumegante da noite, lá fora está um guarda-freio com luz vermelha e luz branca, arrastando-se pelos tristes vastos enevoados trilhos da vida–mas agora estou em cima daquele planalto Vegetal do México, umas noites antes em que eu tropecei na lua de Citlapol no telhado sonolento a caminho da antiga retrete de pedra a pingar–a Tristessa está pedrada, linda como sempre, alegremente a caminho de casa para a cama e curtir a sua morfina.

Noite anterior numa seca sossegada à chuva sentei-me com ela às escuras aos balcões da Meia-noite a comer pão e sopa e a beber Ponche Delaware, e saí daquela entrevista com uma visão da Tristessa na minha cama nos meus braços, a estranheza da sua face de amor, Azteca, rapariga Índia com pálpebras misteriosas nos olhos de Billie Holliday e falava com uma grandiosa voz melancólica de Luise Rainer actrizes Vienenses de tristeza no rosto que puseram toda a Ucrânia a chorar em 1910.

Deslumbrantes ondulações de pêra moldam-lhe a pele até às maçãs do rosto, e longas pálpebras tristes, e resignação de uma Virgem Maria, e compleição de café apessegado e olhos de deslumbrante mistério com inexpressiva e nada-além-de-terrena meia desdenhosa meia pesarosa lamentação de dor. “Estou doentê,” está ela sempre a dizer-me e ao Bull no divã–Estou na Cidade do México desgrenhado e louco rua abaixo num táxi passando pelo Ciné Mexico em engarrafamentos chuvosos, vou dando goles na garrafa, a Tristessa ensaio longos aranzéis para explicar que na noite anterior quando a deixei no táxi o condutor tentou saltar-lhe e ela deu-lhe uma murraça, notícia que o condutor de hoje ouve sem comentários–Estamos a caminho da casa da Tristessa sentarmo-nos e apanhar uma pedra–a Tristessa avisou-me que a casa estará numa confusão porque a irmã está bêbeda e doente, e o El Indio lá estará majestosamente de pé com a agulha de morfina a pender do grande braço moreno, olhos cintilantes a olhar-te directamente ou à espera que a picada da agulha traga a ansiada chama e “Hm-za… a agulha Azteca na minha carne em chama” a parecer-se demais com o tipo enorme em Culiao que me ofereceu o 0 na vez em que vim até ao México para ver outras visões–A minha garrafa de wisky tem uma estranha tampa mole que está sempre a preocupar-me se irá cair e toda a minha mochila ficará afogada em Bourbon whiskey de 86 graus.

Através das ruas malucas de Sábado à noite na borrasca como em Hong Kong o nosso táxi avança lentamente pelos acessos do Mercado e acabamos no bairro das ruas das prostitutas e saímos atrás das afrutadas bancadas de fruta e barracas das tortilhas de feijão e tacos com bancos de madeira fixos–É o bairro pobre de Roma.

Eu pago 3.33 do táxi dando 10 pesos ao taxista pedindo “seis” de troco, que recebo sem comentar e pergunto-me se a Tristessa pensa que eu sou demasiado espalhafatoso como um Big John Bêbado no México–Mas não há tempo para pensar, nós aceleramos pelos passeios escorregadios com reflexos de néon a brilhar e velas acesas de pequenos sentados em passeios com amêndoas numa toalha à venda–viramos rapidamente no beco fedorento do prédio do seu apartamento-cela de primeiro andar-Passamos por torneiras a pingar e selhas e miúdos mergulhando sob o estendal e chegamos até à sua porta de ferro, destrancada pelas entranhas de adobe e entramos na cozinha, a chuva ainda a cair das folhas e tábuas a fazer de telhado da cozinha–deixando chuviscos silvar na cozinha sobre o lixo das galinhas no canto húmido–Onde, milagrosamente, agora, vejo o gatinho cor-de-rosa a fazer uma mijinha em montinhos de quiabo e comida de galinha–O quarto interior todo num palheiro e rebuscado como se por loucos com jornais amarrotados e a galinha a penicar no arroz e pedaços de sandes no chão–Na cama está deitada a “irmã” da Tristessa doente, embrulhada na colcha cor-de-rosa-é tão trágico como a noite em que o Eddy foi alvejado na chuvosa Russia Street–

A Tristessa está sentada à beira da cama ajustando as suas meias de nylon, puxa-as desajeitadamente desde os sapatos com triste carantonha supervisionando os seus esforços com os lábios apertados. Eu observo a forma como ela roda os pés convulsivamente para dentro quando olha para os seus sapatos. Ela é uma rapariga tão bonita, eu imagino o que os meus amigos diriam em Nova Iorque e em São Francisco, e o que aconteceria em Nola ao vê-la Canal Street abaixo sob o sol quente e ela está de óculos escuros e caminha indolente continuando a tentar ligar o seu quimono ao leve casaco comprido como se fosse suposto o quimono ligar ao casaco, puxando convulsivamente por ele e a aparvalhar pela rua dizendo “Aqui’stá o táxe–aí’stá eh quem-aí’stás tu–ê já te trago o diñê-rro.” Dinheiro é diñê-rro. Ela faz dinheiro soar como a minha velha tia Franco-Canadiana em Lawrence “Não é o têo diñêrro, que êo quero, é o têo amorr”–Amor é amorr. “Ê o têo amorr.” A lei é lêe.–O mesmo com a Tristessa, ela está sempre tão pedrada, e doente, chuta dez gramas de morfina por mês.–a cambalear pelas ruas da cidade abaixo e mesmo assim tão bonita que as pessoas continuam a virar-se e a olhar para ela-Os seus olhos irradiam e brilham e a sua face está húmida da névoa e o seu cabelo Índio é preto e frio e escorrido pendendo em duas tranças enrolado atrás num toutiço (o toutiço Índio apropriado para a Catedral)–Os seus sapatos para os quais continua a olhar são novos a estrear não são escavados, mas ela deixa as meias sempre a cair e continua a puxá-las e a rodar convulsivamente os pés–Imagina que uma mulher tão bonita em Nova Iorque, de saia rodada florida a la New Look com uma camisola Dior de peito liso e cashemira cor-de-rosa, e os seus lábios e os seus olhos fazem o mesmo e muito mais. Aqui ela está reduzida às empobrecidas roupas melancólicas de Mulher Índia-Vêem-se as Mulheres Índias na inescrutável escuridão das portas, como buracos na parede em vez de mulheres–as suas roupas–olha-se de novo e vê-se a corajosa, a nobre mujer, a mãe, a mulher, a Virgem Maria do México.–A Tristessa tem um ícone enorme num canto do seu quarto.

Está voltado para o quarto, de costas para a parede da cozinha, no canto à direita de quem olha para a desgraçada cozinha com o seu chuvisco a saraivar inefavelmente dos galhos do telhado e placas (telhado de abrigo bombardeado)–O ícone dela representa a Santa Mãe a olhar fixamente das suas charaderias azuis, as suas vestes e preparos de Damema, à qual o El Índio reza devotamente quando sai para ir arranjar droga. O El Índio, alegadamente, é um vendedor de quinquilharias,–Eu nunca o vejo em San Juan Letran a vender crucifixos, eu nunca vejo o El Índio na rua, nem em Redondas, nem em lugar nenhum–A Virgem Maria tem uma vela, uma catrefada de copos-de-cera que ardem economicamente durante semanas a fio, como rodas-de-oração Tibetanas e a ajuda incansável da nossa Amida–Eu sorrio perante a visão deste ícone encantador–

À sua volta há fotografias dos mortos–Quando a Tristessa quer dizer “mortos” ela juntas as mãos numa atitude devota, indicadora da sua crença Azteca na santidade da morte, e pelo mesmo sinal a santidade da essência–Assim ela tem uma foto do desaparecido Dave o meu velho camarada de anos anteriores agora morto de tensão alta aos 55–A sua cara vagamente Greco–Índia sobressai da fotografia indefinivelmente pálida. Não sou capaz de vê-lo no meio de toda aquela neve. Ele está no céu de certeza, as mãos rígidas em V no êxtase eterno do Nirvana. É por isso que a Tristessa continua a juntar as mãos e a rezar, dizendo, também, “Eu amo o Dave,” ela tinha amado o seu antigo senhor–Ele tinha sido um velho apaixonado por uma rapariga. Aos 16 ela era uma agarrada. Ele tirou-a da rua e, ele próprio um agarrado das ruas, redobrou as suas energias, finalmente fez contacto com junkies ricos e mostrou-lhe como viver–uma vez por ano caminharam juntos até Chalmas até à montanha para escalar uma parte de joelhos até ao santuário cheio de muletas amontoadas deixadas lá por peregrinos curados de doenças, mil tapetes–esteiras estendidos no nevoeiro onde eles dormiam a noite ao relento com cobertores e gabardinas–regressando, devotos, esfomeados, saudáveis, para acender novas velas à Mãe e voltando de novo à rua para arranjar morfina-só Deus sabe onde a arranjavam.

Eu sento-me a admirar aquela majestosa mãe de amantes.

(…)

É infinitamente pior que o sonho adormecido que eu tive da Cidade do México onde vou andando desolado ao longo de apartamentos brancos vazios, cinzento, sozinho, ou onde os degraus de mármore de um hotel me horrorizam–É a noite chuvosa em Cidade do México e eu estou no meio do bairro da Feira Mexicana da Ladra e o El Indio é um ladrão bem conhecido e até a Tristessa era uma carteirista mas eu não faço mais do que ir passando com as costas da mão contra o enchumaço do meu dinheiro dobrado refundido à marinheiro no bolso do relógio do caminho-de-ferro dos meus jeans–E no bolso da camisa tenho os traveler-checks que são à prova de roubo num certo sentido–Aquela, Ah aquela rua lateral onde o gangue de Mexicanos me agarra e vasculha a minha mochila e tira o que quer e me leva para um copo–É treva da mais imprevisível nesta terra, eu apercebo-me de todas as incontáveis manifestações que a mente-pensante inventa para colocar muralhas de horror perante a sua pura perfeita percepção de que não há muralhas nem horror apenas Transcendente Vazio Beijável Luz Láctea da Sempiterna verdade e perfeitamente vazia natureza da Eternidade.–Eu sei que tudo está bem mas eu quero prova e os Buddhas e as Virgens Marias estão lá a lembrar-me do voto solene de fé nesta áspera e estúpida terra onde devastamos as nossas supostas vidas num mar de aflições, carne para Chicagos de Campas–neste mesmo minuto o meu próprio pai e o meu próprio irmão jazem lado a lado em lama no Norte e é suposto eu ser mais inteligente que eles–sendo rápido estou morto. Eu levanto os olhos para os outros engolindo em seco, eles percebem que eu tenho estado perdido em pensamentos na minha cadeira ao canto mas estão a tratar de infindáveis e incríveis inquietações (todas 100% mentais) particulares–Eles cacarejam em Espanhol, eu só apanho fragmentos daquela conversa viril–a Tristessa continua a dizer “chinga” frase sim frase não, uma Fuzileira asneirenta, –ela di-lo com desdém e cerra os dentes e aquilo deixa-me ansioso “Conheces as mulheres tão bem como pensas?”–O galo está imperturbável e larga um berro.

(…)

Eu quero travar amizade com o galo também, agora estou sentado em frente à cama na outra cadeira e o El Indio acabou de sair com um grupo de homens suspeitos de bigodes um dos quais fixou-me curiosamente com um esgar de orgulho satisfeito enquanto eu fiquei em pé com a chávena na mão a fazer de bêbedo em frente às mulheres para a sua edificação e a dos seus amigos–Sozinho em casa com as duas mulheres eu sento-me delicadamente à frente delas e falamos honesta e avidamente sobre Deus. “O mê amigos ‘stá duentê, e ê dô-lhe um’injecção,” diz-me a bela Tristessa de Doulors com os seus longos húmidos e expressivos dedos dançando dançazinhas Índia-Tilintante perante os meus olhos assombrados. “–É quando, cuando, o meu amigo não me paga de volta, qu’ê não me ralo. Porque” apontando como uma expressão séria para os meus olhos, dedo em cima, “o meu Senhor paga-me–e ele paga-me mais–M-a-i-s”–ela inclina-se subitamente enfatizando o mais, e eu gostaria de poder dizer-lhe em Espanhol a ilimitada e inestimável benção que de qualquer maneira ela vai ter no Nirvana. Mas eu amo-a, eu fico apaixonado por ela. Ela bate-me no braço com o dedo delgado. Eu adoro. Eu estou a tentar lembrar-me do meu lugar e da minha posição na eternidade. Eu jurei abdicar da luxúria com as mulheres, – abdicar da luxúria pela luxúria,–jurei abdicar da sexualidade e do impulso inibidor–Eu quero entrar na Corrente Sagrada e permanecer salvo no meu caminho até à outra margem, mas guardaria de bom grado um beijo para a Tristessa pela sua atenção ao meu coração. Ela sabe que eu a admiro e a amo de todo o meu coração e que me estou a conter. “Tu tens a tu vida,” diz ela ao Old Bull (do qual num minuto) “eu eu tênho a mente, minha, e o Jack tem a vida dêlê” apontando para mim, ela está a devolver-me a minha vida não a reclamando como sua como tantas das mulheres que se ama reclamam.–Eu amo-a mas quero partir. Ela diz: “Eu sei, um homem e mulheres está morto,–” “quando querem estar mortos”–Ela acena, confirma dentro de si uma qualquer obscura instintiva crença Azteca, sábia–uma mulher sábia, que teria agraciado as hostes de Bikshunis no próprio tempo de Yasodhara e dado uma divina freira adicional. Com os seus olhos fechados e as mãos juntas, uma Madonna. Faz-me chorar o perceber que a Tristessa nunca teve um filho e provavelmente nunca terá por causa da sua doença da morfina (uma doença que subsiste tanto como a necessidade e se alimenta da necessidade e preenche-se ao mesmo tempo na necessidade, ao ponto de ela gemer de dor todo o dia e a dor é real, como abcessos nos ombros e nevralgia pelos lados da cabeça abaixo e em 1952 mesmo antes do Natal era suposto ela estar a morrer), a santa Tristessa não será motivo de mais renascimentos e irá directamente para o seu Deus e Ele a recompensará em biliões de eternidades e eternidades em tempo de Karma morto. Ela compreende o Karma, ela diz: “Aquilo que eu faço, eu colho” diz ela em espanhol–“Os homens e as mulheres têm errores–erros, falhas, pecados, faltas” os humanos fazem a sua própria sementeira de problemas e tropeçam nas pedras da sua própria imaginação errónea, e a vida é dura. Ela sabe, eu sei, é sabido. “Mas–Ê querêndô têrr drrogâ–morfina–e fico nã-doentê nunca mais.” E ela encolhe os cotovelos com cara paisana, compreendendo-se de uma forma que não consigo e enquanto eu olho para ela a luz da vela cintila nas salientes maças do seu rosto e ela parece tão bonita como a Ava Gardner e ainda melhor como uma Ava Gardner Negra, uma Ava Gardner Castanha com uma grande face e grandes ossos e grandes pálpebras caídas–A Tristessa só não tem aquela expressão do sorriso-sexual, tem aquela expressão de face insípida e desinteresse de beiço caído para aquilo que possas pensar sobre a sua pluperfeita beleza. Não que seja beleza perfeita como a Ava, tem falhas, erros, mas todos os homens e mulheres os têm e assim todas as mulheres perdoam os homens e os homens perdoam as mulheres e seguem os seus caminhos sagrados até à morte. A Tristessa adora a morte, ela vai até ao ícone e põe-lhe flores e reza,–Ela curva-se sobre uma sanduíche e reza, olhando de lado para o ícone, sentando-se à moda Birmanesa na cama (joelho à frente de joelho) (baixa) (sentada), ela faz uma longa oração a Maria para pedir benção ou agradecer pela comida, eu espero em respeitoso silêncio, deito uma olhadela rápida ao El Indio, que também é devoto e mesmo ao ponto de chorar pela droga os seus olhos húmidos e reverentes e às vezes como especialmente quando a Tristessa tira as meias para se meter debaixo dos cobertores da cama uma corrente subterrânea de ditos reverentes entre-dentes (“Tristessa, O Vé, comme tést Belle”) (que é certamente o que eu estou a pensar mas receoso de olhar e ver a Tristessa a tirar as suas meias receando um vislumbre das suas coxas cor de café e enlouquecer)–Mas o El Indio está demasiado carregado com a solução venenosa da morfina para se ralar realmente e continuar a sua reverência pela Tristessa, ele está ocupado, às vezes ocupado em estar doente, tem uma mulher, dois filhos (lá para o outro lado da cidade), tem que trabalhar, tem que chular material à Tristessa quando ele não tem (como agora)–(razão para a sua presença na casa)–eu vejo a coisa toda a estalar e à vista em todas as direcções, a história daquela casa e daquela cozinha.

Na cozinha estão fotos de Raparigas Pornográficas Mexicanas, com cetim preto e grandes coxas e nuvens reveladoras de peito e tecido pélvico, que eu estudo intensamente, nos lugares certos, mas as fotos (2) estão todas turvas e tintas da chuva e tombam em arco e penduradas protuberando da parede de forma que tens de endireitá-las para as estudar, e mesmo assim a chuva faz uma névoa através das folhas de couve mais acima e do cartão ensopado–Quem teria tentado fazer um telhado para a Fellaheena?–“Meu Deus, ele paga-me de volta mais“–

(…)

No fim de San Juan Letran fica aquela última série de bares que acabam numa névoa arruinada, campos de adobe desfeito, sem vagabundos escondidos, tudo madeira, Gorky, Dank, com esgotos e poças, valetas de metro e meio com água no fundo–prédios em frangalhos contra a luz da cidade próxima–Eu olho para as últimas e tristes portas dos bares, onde eu consigo ter vislumbres de traseiros femininos em cetim dourado brilhante e senti-los como se entrasse a voar mas como um um pássaro em vôo faço uma volta e continuo. Putos estão à entrada vestidos à labrego, a banda esgalha um chachacha lá dentro, toda a gente a dar à perna estalando e gritando ao som da música a abrir, todo o clube está a abanar, down, um Negro Americano a andar comigo teria dito “Estes tipos estão a passar-se com malhas mesmos boas, curtem o tempo todo, esgalham, levam o tempo todo a dar-lhe e a dar-lhe por aquela guita, por aquela miúda, enchem as casas até às portas, man, todos a esgalhar–’tás a ver? Eles não sabem quando é que devem parar. É como o Ornar Khayyam, gostaria de saber o que os vinhateiros compram, o que será tão precioso, como o que eles vendem.” (O meu rapaz Al Damlette.)

Eu piro-me nestes últimos bares e começa a chover realmente com força e eu ando o mais rápido que posso e chego a uma grande poça e salto de lá todo molhado e meto-me lá de novo e atravesso-a–A morfina faz com que não sinta a humidade, tenho a pele e os membros adormecidos,–como um puto quando vai patinar no inverno, cai no gelo, e vai a correr para casa com os patins debaixo do braço para não apanhar uma gripe, eu continuei a abrir caminho através da chuva Pan Americana e lá em cima está o rugido gigante de um avião da Pan American a fazer-se para aterrar no aeroporto da Cidade do México com passageiros de Nova Iorque à procura de encontrar o outro lado dos sonhos. Eu levanto os olhos através da borrasca e vejo a descarga eléctrica da sua cauda–não me hão-de apanhar a aterrar sobre grandes cidades e tudo o que faço é fincar unhas aos lados do assento e balouçar enquanto o piloto expeditamente nos estampa no meio de labaredas tremendas contra as paredes de armazéns no bairro de lata da Velha Cidade India–o quê? com todos aqueles rat rat tans de pistolas nos bolsos a vasculhar nos meus ossos fumegantes à procura de qualquer coisa de ouro, e depois os ratos a roer. Antes andar que ir de avião, eu posso bem cair de cara no chão e morrer assim.–Com uma melancia debaixo do braço. Mira.

(…)

“Louvado seja o Senhor, Tu que amaste toda a vida sensível.” Porque é que eu tenho que pecar e fazer o sinal da Cruz? “Não uma da vasta acumulação de concepções do tempo sem princípio, através do presente e pelo futuro interminável dentro, nem uma delas é alcancável.”

É a velha questão “Sim a vida não é real” mas tu vês uma mulher linda ou qualquer coisa de que não consegues fugir porque está ali mesma à tua frente – Esta linda mulher com 28 de pé à minha frente com o seu corpo frágil (eu ponh’isto no meu pescoço [um babete] para que ninguém olhe e veja o meu lindo corpo,” ela acha que está a dizer uma piada, não se reconhecendo como linda), e aquela face tão expressiva da dor e do encanto que sem dúvida entraram na receita deste mundo fatal,–um nascer do sol lindo, que te faz parar nos areais e que olhes deslumbrado para o mar ouvindo a Magi Fire Music de Wagner nos teus pensamentos–a frágil e sagrada compostura da pobre Tristessa, a trémula bravura do seu corpo assolado pela droga que um homem poderia atirar três metros pelo ar–o feixe de morte e beleza–tudo Forma pura de pé à minha frente, todos os tormentos e torturas da beleza sexual, o seio, THE LIMB OF THE MIDDLE BODY, toda a confusão abraçavel de uma mulher algumas delas apesar de terem 1,80 m de altura consegues bater uma soneca nas suas barrigas à noite como uma sesta na margem sonhadora de uma mulher–Como Goethe aos 80, conheces a futilidade do amor e encolhes os ombros–Desdenha-o beijo terno, a língua e os lábios, o puxão na cintura estreita, toda aquela coisa planante e terna bem agarradinha a ti–a pequenina mulher–pela qual os rios correm e homens caiem de escadotes–O dedos castanhos longos e frios da Tristessa, lentos, descuidados e ociosos, como um encontrar de lábios–Tristessa a Noite Espanhola do seu profundo buraco do amor, as touradas nos seus sonhos contigo, a ociosa rosa chuvosa contra a face idolente–E todas as concomintantes amoridades que uma terna mulher e um jovem num país distante deveriam ansiar–Eu estava a viajar em círculos na América do Norte em muitas trágedias cinzentas.

Eu deixo-me ficar de pé a olhar para a Tristessa, ela vem visitar-me no meu quarto, não se quer sentar, fica em pé e fala–à luz da vela ela está excitada e ansiosa e linda e radiante–Eu sento-me na cama, olhando para o chão pétreo, enquanto ela fala – eu nem sequer oiço o que ela está a dizer, sobre droga, Old Bull, como está cansada–“Eu vou ao fazê-lo a-manhê–A-MANHÊ–” dá-me pancadinhas com a mão para reforçar, e eu tenho que dizer “Ya, ya, vai lá” e ela continua com a sua história, que eu não compreendo–eu não consigo de todo olhar para ela por Medo dos pensamentos que terei–Mas ela trata de tudo por mim, ela diz “Sim, nós estamos a sofrer–” Eu digo “La Vida es dolor” (a vida é sofrimento), ela concorda, diz que a vida é amor também. “Quando tens um milhão de pesos não me interessa quanto, eles não se mexem” –diz ela, indicando a minha parafernália de escrituras com capas de pele e envelopes de Sears aRoebuck com selos e envelopes de avião lá dentro–como se eu tivesse um milhão de pesos escondidos naquele momento debaixo do chão–“Um milhão de pesos não se mexe–mas quando tens o amigo, o amigo dá-to na cama” diz ela, pernas ligeiramente afastadas, gingando com os rins no ar na direcção da minha cama indicando o quão melhor um ser humano é do que um milhão de pesos–Eu penso na inexrimível ternura de receber esta amizade sagrada do sacrificável corpo doente da Tristessa e quase me sinto a chorar ou a agarrá-la e beijá-la–Uma onda de solidão passa sobre mim, relembrando-me amores passados e corpos em camas e a imbatível vaga ao entrar para as profundezas da amada e todo o mundo a ir juntamente–Embora nós saibamos que Mara a Tentadore é má, os seus campos de tentação são inocentes — Como poderia a Tristessa, ao despertar paixão em mim, ter alguma coisa a ver, exceptuando como um campo de virtude ou um joguete de inocência ou uma testemunha material da minha lascívia mortal, como poderia ela ser culpada e como poderia ser ela mais doce ainda do que estando ali de pé explicando o meu amor com a pantomina das suas coxas. Ela está pedrada, ela continua a tentar na lapela do seu kimono (debaixo vê-se um chinelo a aparecer) tentando abotoá-lo sem conseguir a um inexistente botão do casaco. Eu olho-a bem no fundo dos seus olhos, querendo dizer “Serias minha amiga assim?” e ela olha directamente para mim lagos nem disto nem daquilo, a sua combinação de relutância para quebrar o seu pacto pessoal de aversão além do mais alojado na Virgem Maria, e o seu amor do desejo-por-mim, torna-a tão misteriosa como Tathagata cuja forma é descrita como sendo inexistente, tão impenetrável quanto a direcção que um fogo apagado seguiu. Eu não consigo obter um sim ou um não dos seus olhos durante o tempo em que me reparto por eles. Nervosíssimo, sento-me, levanto-me, sento-me, ela de pé a explicar-me mais coisas. Eu estou deslumbrado pela forma como a sua pele se enruga Oh tão sensivelmente abaixo da ponte do seu nariz em linhas limpas e claras, e a sua risadinha de prazer que surge tão raramente e tão de menina, menina contente,–O pecado é todo meu se eu fizer um avanço para ela.

Eu quero agarrá-la com as duas mãos pela cintura e puxá-la lentamente para mim com algumas palavras de ternura como “Mi gloria angela” ou “Mi qualquer coisa” mas não tenho linguagem para disfarçar a minha atrapalhação–Pior do que tudo, seria, tê-la a empurrar-me para o lado e dizer “No, no, no” como heróis desiludidos de bigodes em filmes franceses a levarem uma tampa da loirinha que é a mulher do guarda-freio, junto a uma vedação, no meio de fumo, meia-noite, nos parques das estações francesas, e eu faço uma carantonha de amante ferido e desculpo-me,–afastando-me dessa forma com a sensação que tenho uma tendência brutal em mim que não tinha notado antes, uma concepção comum a todos os jovens e velhos amantes. Eu não quero causar aversão à Tristessa–Causar-me-ia horror arruinar-lhe os ternos segredos das pétalas da sua carne e fazê-la acordar de manhã alojada contra as costas de um homem que não é benvindo que faz amor de noite e se vira para dormir, e que acorda gemendo a roçar-se e causando consternação pela sua presença onde antes existia uma absoluta e perfeita pureza de ninguém.

Mas o que eu perdi quando não obtenho aquele avanço amigável do corpo da amante, vindo direito a mim, todo meu, mas era um matadouro para carne e tudo o que fazes é saciares-te nos destroços naquilo-que-terá-que-ceder na meninice.–Quando a Tristessa tinha 12 velhos pretendentes torceram-lhe o braço ao sol à porta da cozinha da mãe–Eu vi-o um milhão de vezes, no México os rapazes queres as raparigas–A sua taxa de natalidade é formidável–Eles largam-nas a gemer e a morrer às toneladas douradas em cubas de semivinhateiros do Velho Tokyo berço nascente.–Perdi-me no meu pensamente aqui,–

Sim, as coxas da Tristessa e a carne dourada toda minha, o que sou eu um Homem das Cavernas? Sou um Homem das Cavernas.

Homem das Cavernas enterrado bem fundo.

Seria simplesmente a corona das suas faces a pulsar até à boca, e a minha memória dos seus esplêndidos olhos, como se estivesse sentado num amoroso camarote em França e entra a orquestra ribombante e eu viro-me para o Monsieur ao lado soprando-lhe ao ouvido “Ela é splendide, non?”–Com Johnny Walker Scotch no bolso do meu smoking.

Eu levanto-me. Tenho que vê-la.

Pobre Tristessa está para ali a oscilar de um lado para o outro explicando todos as suas aflições, como ela não arranjou dinheiro nenhum, está doente, estará doente de manhã e no seu olhar acho que apanhei o arremedo de um fantasma da minha aceitação como amante–A única vez que eu vi a Tristessa a chorar, foi quando está ressacada à beira da cama do Old Bull, como uma mulher no último banco de uma igreja na sua novena diária ela toca nos seus olhos — Ela aponta par o céu novamente, “Se o meu amigo não me paga,” olhando-me de frente, “o meu Deus paga-me–mais” e eu consigo sentir o espírito a entrar no quarto enquanto ela está de pé, esperando com o seu dedo apontado para cima, pernas abertas, confiante, que o seu Deus lhe pague–“Mais” e enquanto o espírito nada à volta do quarto e consigo aperceber-me do lúgubre horror daquilo (a sua recompensa tão escassa) que agora eu vejo irrandiando do alto da sua cabeça inúmeras mãos que vieram de todos os dez quartéis do Universo para a abençoar e pronunciar-lhe o seu Bodhisat por dizê-lo e sabê-lo tão bem.

A sua Iluminação é perfeita,–“E nós não somos nada, tu e eu”– ela dá-me com o dedo no peito, “Txu–Txu–” (“Tu” em mexicano) “- e eu”–apontando para si–“Nós não somos nada. Amanhê nós talvez morremos, e assim não somos nada–” Eu concordo com ela, eu sinto a estranhesa daquela verdade, eu sinto ue nós somos dois fantasmas de luz ou uns fantasmas em velhas casas assimbradas diáfanos e preciosos e brancos e ausentes dali,–Ela diz “Eu sei que tu queres dormir.”

“Não não” digo eu, vendo que ela quer partir–

“Eu vou dormi-lo, amanã de manã eu vou ver do homens e buscar a morfina e beño ter com o Old Bool”–e desde que não somos Nada, nada, eu esqueço-me do que ela disse sobre amigos completamente perdido na beleza da estranha beleza da sua imagética, verdadeira do princípio ao fim–“Ela é um Anjo,” penso eu secretamente, e acompanho-a até à porta com um movimento do braço enquanto se inclina para a porta para sair–Temos cuidado para não tocarmos um no outro–Eu tremo, uma vez eu dei um salto de campeão quando a ponta do seu dedo me tocou no joelho enquanto conversavamos, nas cadeiras–a primeira tarde que eu a vi, de óculos escuros, à janela da tarde solarenga, junto a uma vela acesa por gozo, gozo marado da vida, fumando, linda, como a Dona Donzela de Las Vegas, ou a Heroína Revolucionária do Zapata do Marlon Brando no México – com heróis Culiatan e tudo–Foi quando fiquei apanhado por ela–O seu ar no espaço dourado da tarde, a beleza pura, como seda, as crianças às risadinhas, eu a corar, em casa do tipo, onde encontrámos a Tristessa pela primeira vez e em que tudo isto começou–Tristessa Sumpaticus com o seu coração um portão dourado, achei a princípio ser uma feiticeira maléfica–Tinha-me cruzado com uma Santa no México Moderno e aqui estava eu a fantasiar sonhos por ali além sobre predestinadas ordens para nada e traições necessárias–a traição do velho pai quando ele engoda com manha os três putos malucos aos gritos e a brincar na casa arder, “Eu dou a cada um a vossa carreta favorita,” lá vêem eles a correr atrás das carretas, ele dá-lhes a Elevada Incomparável Grande Carreta do Boi Castrado de Veículo Único que eles são demasiado novos para apreciar–com aquele comando da grandecarreta, ele fez-me uma oferta–Eu olho para a perna da Tristessa e decido evitar o assunto do destino e descansar para lá do céu.

Eu faço jogos com os seus fabulosos olhos e ela anseia por estar num mosteiro.

“Deixa a Tristessa em paz” digo eu, olha, como se dissesse “Deixa o bichano em paz, não o magoes”–e abro-lhe a porta, para sairmos, à meia-noite, do meu quarto–Desastradamente aos trambolhões eu seguro com a mão a grande lanterna de guarda-freio do caminho de ferro junto aos pés dela enquanto descemos os perigosos degraus nem é preciso dizer, ela quase tropeçou quando subiu, ela gemia e suspirava a subir, ela sorria e agarrava na saia com a mão a descer, com aquela magéstica adorável lentidão de mulher, como uma Victória Chinesa.

“Nós não somos nada.”

“Amanhã talvez morremos.”

“Não somos nada.”

“Tu e Eu.”

Delicadamente eu indico todo a caminho por ali abaixo com a luz até à rua onde eu chamo um táxi branco para a levar a casa.

Desde o tempo sem princípio e pelo interminável futuro, os homens amaram mulheres sem lhes dizer, e o Senhor amou-as sem dizer, e o vazio não é vazio porque não há nada do que ficar vazio.

“Estais aí, Estrela do Senhor?–Diminuta é a chuva que abalou a minha tranquilidade.

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