16 12 2008

Um dia, por onde eu tenho passado, por quem eu tenho passado, hão-de dizer

“Eu trabalhei com ele”

“Ele passou por aqui”

“Eu conheci-o”

“Eu dei-lhe trabalho”

como quem diz que conheceu o artista antes de o ser, como quem contribuiu, como quem quer dizer que até teve um papel essencial na minha formação, no homem que sou

“Quem o viu e quem o vê”

mas, lá atrás, no tempo do papel essencial e da proximidade e da passagem,

“Olh’ó intelectual!”

“Tens a mania”

“Trabalha mas é”

de desdém por quem está de passagem e não consegue escondê-lo, de despeito pela passagem, de onde veio e para onde vai mesmo que não saiba e não faça questão de saber, e por ficarem só a vê-lo a passar, como os rafeiros que ladram às rodas que rodam pela estrada fora.





Beat III

16 12 2008

A necessidade de ficar num só sítio, mexer-me o menos possível, concentrar-me na escrita, obriga-me a ser levado para todo o lado pelo trabalho, Tripalium, Trabalho, Castigo, a deixar-me levar para conseguir manter o lugar para onde possa voltar —

é a luta para me manter, a luta para poder voltar ao lugar protector onde só os meus fantasmas me conseguem alcançar, onde só os meus fantasmas são a única companhia que quero e preciso —

e a única pergunta que me ocorre é

“Para que é que vale a pena?”,

se quando volto mal me consigo aguentar e tenho logo que sair de novo para ir correr a corrida sem sentido a que tento fugir mas que, se dela fujo, não tenho para onde voltar, não tenho as minhas estantes e as minhas páginas amarelecidas e a minha mesa e cadeira com a madeira a lascar que gravam baixos relevos de linhas cruzadas nos meus braços em que me apoio na escrita —

mas a pergunta de Picarus continua a ecoar nas paredes da minha cabeça

“Para que é que vale a pena?”,

sabendo que a resposta é outra pergunta

“Para quê?”

que, no desdém do seu tom, responde já à primeira e à segunda com uma indiferença de costas voltadas e ouvidos desinteressados.





Beat II

6 12 2008

I’m beat…





Beat I

6 12 2008

Quando inaugurei este espaço, fi-lo com os seguintes objectivos:

  1. Dedicar algum trabalho à reunião de notas e apontamentos sobre o grupo de escritores norte-americanos do pós-Segunda Guerra Mundial que ficou conhecido como Beat Generation;
  2. Usá-lo como gaveta aberta para alguma da minha escrita.

Para o tema deste post, o segundo objectivo é secundário, mas visto não ter até agora produzido algo no sentido de anotar os propósitos que me levaram a abrir esta tasca, serve a cajadada para matar também este coelho.

Ao longo dos quase 15 anos desde que li pela primeira vez Lonesome Traveller (o meu primeiro contacto com a prosa de Jack Kerouac), uma das questões sobre a qual mais tenho lido é sobre a definição de BEAT, provavelmente por ser a geradora de maior confusão. O facto de ter entrado para o domínio público pela via da contestação e rejeição dos sacrosantos valores da consumidora e electrodomesticada mediania americana também não ajudou a acolhê-las pacificamente, nem definição nem geração, sendo desvalorizada em vez de compreendida, através da única e mais eficaz forma que a mediocridade suburbana consegue fazer a tudo o que é marginal e incómodo. Pela aceitação. Dá-lhes um nome, cola-lhes uma imagem facilmente identificável e tão redutora como uma estrela amarela cosida à lapela e usa-a até a matar por exaustão. Vivendo na era da imagem (e Jack Kerouac soube-o na pele), nada é mais fácil do que arrasar com algo de desconfortável em plena televisão, perante milhões de pares de olhos vidrados que aceitam como verdades incontestáveis tudo o que vêem. E o que é verdade não é o que é dito ou mostrado, mas apenas o meio que o transmite, o écran. O meio é a mensagem…

Um post não é o local ideal para definir algo tão complexo como um sentimento pelo qual, afinal de contas, passam sem excepção todos os jovens que procuram encontrar respostas para as suas dúvidas ao chegarem à idade adulta e se sentem à deriva enquanto procuram o seu lugar num mundo em que não se revêem nem reconhecem como sendo o seu ou aquele que esperavam. Prefiro apontar para as leituras que eu próprio fiz e tenho feito ao longo de todo este tempo. Algumas já se encontram traduzidas ou por traduzir nas páginas deste espaço. Mais juntar-se-lhes-ão. Textos deles e notas minhas.

Quem quiser ler ou consultar que faça a sua leitura. Melhor do que dizer tudo, é deixar descobrir o que houver para encontrar, exterior e interiormente. Não deixarei de apresentar a minha própria leitura, e as minhas palavras sobre o que li. É uma visão sobre anos de estudo, não como trabalho, mas como amor e partilha. Foi feito ao sabor do sentimento e ao ritmo da descobertas, do apanhar de pontas que iam surgindo pelo caminho, às vezes hesitando e outras voltando para trás e olhando com novo olhar para o que já conhecia e renovando o interesse. Tem sido uma viagenzinha solitária, mas tem valido a pena por cada linha e não a trocaria por nada. Neste momento estou aqui para continuar.