Beat I

6 12 2008

Quando inaugurei este espaço, fi-lo com os seguintes objectivos:

  1. Dedicar algum trabalho à reunião de notas e apontamentos sobre o grupo de escritores norte-americanos do pós-Segunda Guerra Mundial que ficou conhecido como Beat Generation;
  2. Usá-lo como gaveta aberta para alguma da minha escrita.

Para o tema deste post, o segundo objectivo é secundário, mas visto não ter até agora produzido algo no sentido de anotar os propósitos que me levaram a abrir esta tasca, serve a cajadada para matar também este coelho.

Ao longo dos quase 15 anos desde que li pela primeira vez Lonesome Traveller (o meu primeiro contacto com a prosa de Jack Kerouac), uma das questões sobre a qual mais tenho lido é sobre a definição de BEAT, provavelmente por ser a geradora de maior confusão. O facto de ter entrado para o domínio público pela via da contestação e rejeição dos sacrosantos valores da consumidora e electrodomesticada mediania americana também não ajudou a acolhê-las pacificamente, nem definição nem geração, sendo desvalorizada em vez de compreendida, através da única e mais eficaz forma que a mediocridade suburbana consegue fazer a tudo o que é marginal e incómodo. Pela aceitação. Dá-lhes um nome, cola-lhes uma imagem facilmente identificável e tão redutora como uma estrela amarela cosida à lapela e usa-a até a matar por exaustão. Vivendo na era da imagem (e Jack Kerouac soube-o na pele), nada é mais fácil do que arrasar com algo de desconfortável em plena televisão, perante milhões de pares de olhos vidrados que aceitam como verdades incontestáveis tudo o que vêem. E o que é verdade não é o que é dito ou mostrado, mas apenas o meio que o transmite, o écran. O meio é a mensagem…

Um post não é o local ideal para definir algo tão complexo como um sentimento pelo qual, afinal de contas, passam sem excepção todos os jovens que procuram encontrar respostas para as suas dúvidas ao chegarem à idade adulta e se sentem à deriva enquanto procuram o seu lugar num mundo em que não se revêem nem reconhecem como sendo o seu ou aquele que esperavam. Prefiro apontar para as leituras que eu próprio fiz e tenho feito ao longo de todo este tempo. Algumas já se encontram traduzidas ou por traduzir nas páginas deste espaço. Mais juntar-se-lhes-ão. Textos deles e notas minhas.

Quem quiser ler ou consultar que faça a sua leitura. Melhor do que dizer tudo, é deixar descobrir o que houver para encontrar, exterior e interiormente. Não deixarei de apresentar a minha própria leitura, e as minhas palavras sobre o que li. É uma visão sobre anos de estudo, não como trabalho, mas como amor e partilha. Foi feito ao sabor do sentimento e ao ritmo da descobertas, do apanhar de pontas que iam surgindo pelo caminho, às vezes hesitando e outras voltando para trás e olhando com novo olhar para o que já conhecia e renovando o interesse. Tem sido uma viagenzinha solitária, mas tem valido a pena por cada linha e não a trocaria por nada. Neste momento estou aqui para continuar.





Geração Batida

16 11 2008

Este é o título do livrinho que consegui encontrar há alguns dias num alfarrabista de Lisboa. Que eu tenha conhecimento, é a primeira publicação em forma de livro de autores da Beat Generation em Portugal (1963), exceptuando a edição de On the Road como Pela Estrada Fora, pela Ulisseia em 1961. A selecção dos textos esteve a cargo de Jorge Daun, que também traduziu, juntamente com Carlos Cunha, Manuel de Seabra e Manuel J. Palmeirim. A apresentação foi de José de Melo, ortónimo de Jorge Daun.

Fica aqui o apontamento de umas notas mentais que saíram da minha primeira leitura, apesar de pretender debruçar-me mais criticamente sobre a obra.

1. Na apresentação de José de Melo salta à vista a pomposidade do estilo, numa construção que está nos antípodas do que se esperaria ver associado aos Beats.

2. Mas se a primeira observação mais imediata poderia ser ultrapassada pelo conteúdo, é impossível não ficar desapontado pela presença dos erros factuais sobre a Beat Generation, ao dizer que esta tem origem em São Francisco, incluindo nas suas fileiras os nomes de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti e Gregory Corso. Ora bem, destes apenas L.F. está sediado em São Francisco, tendo também nascido em Nova Iorque. Correcta está apenas a data de 1948-9. Depois situa o surgimento de um segundo grupo em Nova Iorque, mais moderado e intelectualizado.

Realmente existiram dois grupos, mas o primeiro surgiu em N.I. pela mão de J.K., A.G., William Burroughs, Lucien Carr (que não escreveu, mas foi instrumental na sua aproximação), Herbert Huncke e John Clellon Holmes. Quanto a Gregory Corso, só se lhes juntou no início da década de 50 pela mão de A.G., pouco tempo depois de ter saído da prisão. É a este conjunto de pessoas que se pode chamar a Beat Generation, embora seja difícil chamar de geração a um grupo de três ou quatro pessoas, como Gary Snyder bem notou.

Em São Francisco, surgiu um outro grupo, sob a tutela de um Kenneth, não Patchen, mas sim Rexroth, aproximadamente da idade do primeiro, que foi o mestre de cerimónias da sessão de leitura na Six Gallery, em Outubro de 1956, que marcou o aparecimento público da San Francisco Poetic Renaissance, aos quais se juntaram alguns dos escritores do grupo de N.I., e onde A.G. leu pela primeira vez em público o seu poema Howl. Este grupo levantou o interesse pelo Budismo Zen, pelos temas ambientais e a culturas nativas da América. Na sequência da leitura de Howl, tornou-se famoso o telegrama de L.F., em que citava o de Emerson a Thoreau um século antes, a A.G. no dia seguinte, felicitando-o “pelo início de uma grande carreira”, perguntando-lhe “para quando o manuscrito?” que viria a ser publicado como n.º 4 da Pocket Poets Series da City Lights, e alvo da acusação de obscenidades, num julgamento que elevou a Beat Generation ao plano nacional, e abrindo caminho para a publicação de outras obras censuradas na América, como o Tropic of Cancer de Henry Miller ou Naked Lunch de W.B..

3. Anoto ainda a não existência de notas bibliográficas, tanto no texto de apresentação, como nos textos traduzidos.

Concluindo por agora (espero desenvolver este tema brevemente, numa tentativa de assentar definitivamente as origens da Beat Generation, uma vez que já existe extensa bibliografia sobre o tema, sendo assim injustificável a continuação de informações imprecisas ou erradas), gostaria de deixar uma ressalva às observações sumárias que fiz.

Não vivi no tempo em que surgiu esta publicação, nem tive até agora oportunidade de privar com quem tenha vivido as restrições de uma ditadura e as dificuldade de se fazer publicar por motivos morais ou políticos. Assim, não consigo avaliar a dificuldade de conseguir textos e obras vindos do estrangeiro que tivessem provado celeuma nos seus países de origem como foi o caso da Beat Generation, embora sempre tenha lido ou ouvido episódios anedóticos sobre a ignorância dos senhores do lápis azul. Por outro lado, as viagens não seriam frequentes, muito menos aos Estados Unidos, e as obras ainda não eram abundantes, ainda que a imprensa americana lhes tenha dado algum espaço, mesmo que raras vezes abonatório. Desculpam-se assim relutantemente os erros a pretexto da apresentação dos trabalhos (escassos) traduzidos.

No entanto, não é possível tolerar a permanência desses mesmos erros trinta anos depois, pela mão de outro autor, Miguel Martins, nas páginas da Revista História n.º 171, de 1993, onde reproduz as palavras de José de Melo presentes na obra antologiada por Jorge Daun. Há quinze anos, bastantes das obras que ainda hoje são referência sobre a Beat Generation já tinham sido publicadas e estariam com certeza facilmente acessíveis.