Adolfo Luxúria Canibal

28 04 2010

Entrevista com José Fialho Gouveia, Bairro Alto, RTP 2, 27 de Abril, 2010

A comemorar 25 anos de carreira, é difícil que alguém que goste de música e lhe dedique alguma atenção nunca tenha ouvido falar dos Mão Morta. Usando este aniversário como pretexto, Adolfo Morais de Macedo, que assume o estatuto público e carisma do seu alter-ego, Adolfo Luxúria Canibal, foi convidado a falar sobre a sua vida e carreira.

Pelo seu tempo de vida, os Mão Morta, tornaram-se inevitavelmente uma banda que encontrou o seu lugar junto do público, mesmo aquele que não gosta, por via da sua permanência, da sua sobrevivência, e talvez seja daqueles casos em que é mais mitificada do que realmente conhecida. Poucos terão sido testemunhas, mas dificilmente alguém não terá já ouvido na noite em Adolfo se esfaqueou a si próprio em palco, no desaparecido Rock Rendez-Vous, continuando a actuação até cair.

Os Mão Morta, e Adolfo Luxúria Canibal, são um fenómeno musical e, num espectro mais abrangente, representativos de uma realidade que, enquanto se situa nas margens pode ser evitada mas que, pela sua presença continuada, consolidam a sua posição e estatuto ao longo do tempo, fazendo com que quem não lhe dê sinal de reconhecimento passe por cego, ignorante ou tenha má vontade. O reconhecimento nunca foi, no entanto, o objectivo que norteou a sua existência, e se ele chegou ao longo deste tempo, deveu-se à coincidência entre os seus interesses e prazeres musical e intelectual e o ouvido do público.

A evolução da sua carreira não foi diferente da de algumas outras bandas com que partilham opções estéticas e audiências. Por exemplo, os Einstürzende Neubauten, berlinenses, iniciados no finais da década de 70 no underground do rock industrial, tornaram-se na viragem do século uma banda frequentadora dos grandes centros culturais pelo mundo fora. No caso das suas passagens por Portugal, deram um primeiro concerto numa Voz do Operário em estado decadente no início dos anos 90, regressando em 2005 ao Grande Auditório do CCB, e a definição da sua música pode passar pela evolução de um terrorismo industrial para um laboratório de experimentação sónica.

A carreira dos Mão Morta pode também ser definida segundo termos semelhantes, com um início em que as suas influências mais primárias, as musicais, foram destiladas por meio de um domínio incipiente dos instrumentos, até ao ponto em que cada trabalho passou a ser orientado segundo um tema centrar, estórias em cidades ou Heiner Müller, os Situacionistas, a Beat Generation, Isidore Ducasse ou J. G. Ballard.

Mas em qualquer abordagem que se faça a uma banda ou ao seu trabalho, assim como a qualquer artista, independentemente do seu meio de expressão, e à sua obra, centrado sobre a análise da sua obra, existe sempre a hipótese ou inevitabilidade de se perder a dimensão mais profunda do impulso criador, ou por outro lado, da fruição.

Na entrevista, tornou-se perceptível que a música de José Fialho Gouveia não é a dos Mão Morta, ou sequer é conhecedor da sua obra. Não digo no entanto que ele seja um mau entrevistador e, sendo espectador mais ou menos regular do seu programa, digo antes o contrário, até pela empatia que consegue estabelecer com os seus entrevistados. Apenas me pareceu evidente o seu distanciamento em relação ao universo estético, intelectual e cultural dos Mão Morta e de Adolfo Luxúria Canibal.

Este distanciamento desperta-me no sentido das dúvidas e questões sobre a actividade do entrevistador ou de alguém que se coloca na posição de alguém que tenta servir de meio de transmissão de uma história.

A empatia significa o estabelecimento de uma relação entre duas pessoas em que uma tem a capacidade de se colocar na posição de outra, de compreender as suas motivações, posições e anseios. No entanto, excluindo casos de esquizofrenia, o ser humano não tem a capacidade de se colocar fora de si e assumir a posição de outro. Até mesmo no caso dos actores, ao vestirem a pele do personagem que representam, recorrem a referências do seu universo íntimo para compreenderem e interiorizarem as particularidades do outro. Assim, tal como Adolfo Morais de Macedo e Adolfo Luxúria Canibal são faces do mesmo homem, e não duas existências distintas, também o entrevistador não consegue distanciar-se mais do que de uma faceta para outra da sua própria pessoa no exercício do seu  trabalho. Foi assim que se tornou evidente a não existência de qualquer plano comum entre o entrevistador José Fialho Gouveia e Adolfo Luxúria Canibal.

Comparando com uma entrevista dada há alguns anos a Ana Sousa Dias, a de hoje pareceu frouxa. O aperto de mão no final, podendo ser entendido como um sinal de reconhecimento transmitido do entrevistador ao entrevistado, pareceu-me mais uma formalidade de quem está agradecido por ter conseguido chegar ao final e pode respirar de alívio, até porque foi a primeira vez que me lembro de o ter visto nos vários programas a que tive oportunidade de assistir.

Por outro lado, a postura desprendida de Adolfo Luxúria Canibal face à música para lá do gozo de quem vai com os amigos brincar para o quarto dos brinquedos (expressão usada habitualmente pelo próprio para definir a sua ligação com a carreira musical), faz com que a sua posição na cadeira de entrevistado seja duvidosa no sentido de não se saber se se está perante um jurista que escreve e faz música, ou perante um músico e escritor que é jurista para garantir um meio de subsistência.

Referindo-se às bocas que lhe eram dirigidas na adolescência relativas à sua aparência, bocas de “pedreiro à sopeira”, o vocalista definiu uma atitude que lhe é dirigida, a do crítico em relação ao artista que tenta encaixotar,  e que ele próprio sabe muito bem manipular, como quem se diverte com a falta de pontaria do atirador.

Ou seja, ocorre-me que os Mão Morta, nas carreiras profissionais de cada um dos seus membros, são uma espécie de Banqueiro Anarquista, figura que de certeza lhes é cara, mantendo uma vida que lhes permite os meios financeiros suficientes para poderem viver as suas opções artísticas sem quaisquer cedências. E, tal como a ambiguidade seria para o Banqueiro Anarquista a fonte da sua satisfação pessoal e pilar da sua personalidade, também a hesitação e o desconhecimento face à sua pessoa por parte dos entrevistadores que, seguindo o impulso jornalístico de quem tenta arrancar generalidades aos entrevistados que os definam, são motivo de gozo para Adolfo Luxúria Canibal e garantia de manutenção do mito pessoal que nestes 25 anos criou e tem feito pairar sobre Portugal.

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