0.1

Se há coisa que me dá cabo da cabeça é a questão da identidade-da minha, claro. Por arrastamento, vem a de toda a gente, mas como é através dos meus olhos que eu vejo os outros e o mundo dos outros, tudo me parece bem e toda a gente me parece bem identificada consigo própria. Toda a gente me parece decidida, toda a gente parece saber para onde vai quando se cruza comigo na rua, com passos firmes e rápidos sabendo que estão a tempo de chegar onde têm de chegar ou, se estiverem com pressa, convictos de que vão lá chegar mesmo em cima do minuto que lhes está destinado chegar e mesmo que não cheguem, têm sempre a justificação que será aceite como perfeitamente inabalável ou então nem lhes será necessário apresentá-la porque são fulano de tal que desempenha tal função e têm tal papel fundamental para a acção que está à sua espera para se iniciar e levam consigo e para todo o lado a imagem da importância que lhes é dada e sabem que lhes é devidamente devida e que até os precede, pois se lhes acontece chegar àqueles sítios novos que fazem parte da sua rotina estar sempre a conhecer ou a ser convidados, é-lhes dito por quem já lá está que lá está e grande parte porque tinha a secreta esperança de finalmente o conhecer porque beltrano de tal já lhes tinha falado muito bem de si, tecido os maiores cumprimentos e apresentado as melhores referências que nunca eram demais apesar de insuficientes perante as que já o seu trabalho mereciam. E assim, fulano e beltrano de tais, que as suas imagens não deixam margem para dúvidas que só poderiam ser o que as suas profissões os fazem ser, são o rosto dessas suas actividades profissionais que desempenham com extremo profissionalismo e competentissimamente, e ao mesmo tempo, no centro dos seus círculos de relações, conhecimentos e influências-porque tudo se passa dentro de um círculo, ou quando não é um círculo é um meio, uma confraria ou ordem ou sociedade-ameaçam, ou melhor, prometem (prometem-lhes) tornar-se a referência icónica que extravasa fronteiras e eleva parâmetros de qualidade a patamares por alcançar, levando consigo os nomes dos seus pares às encostas de olimpos conquistados por onde derramam a seiva da sua competência, altaneiros que não almejam nem dão importância e que, lá instalados, dizem não esperar merecer semelhante honra (embora no íntimo achassem que já era mais do que tempo para lhes ser reconhecida pelos bandos de ranhosos que se alaparam a si durante anos e dos quais se viu obrigado a aturar baboseiras atrás de baboseiras ao longo dos anos da sua merecida ascensão) embora muito os deixe emocionados, só lhes restando uma única alternativa, a de redobrar os esforços que sempre pautaram a sua dedicação às suas missões e aos profissionais que sempre se entregaram de corpo e alma para a causa comum de fazer avançar o progredir as suas actividades dentro da organização que tantas oportunidades lhes tinha dado para crescerem enquanto profissionais.

Eu vou pela rua, raramente decidido para algum lado, na maioria das vezes atrasado e sem justificação que valha o interesse, compreensão e muito menos justificação para a perturbação que causa onde tenho que chegar-ou não provoca, o que é talvez mais frequente, por ser muitas vezes aquele que lá está há menos tempo, o menos apetrechado nas competências necessárias ao desempenho nos processos conducentes ao alcance dos objectivos traçados para a actividade que está em execução­­-, cruzo-me, ou melhor, cruzam-se comigo essas criaturas sumamente decididas (ou assim, o interpreto eu, pelo entendimento científico da relação entre os corpos em mobilidade num determinado espaço, cujas aproximações e afastamentos estão submetidas a leis universais de atracção e repulsão) mas o cruzamento é simplesmente a designação técnica para a identificação de um fenómeno ocorrido e registado no relatório de conclusão do percurso da navegação automática dos seus sensores que os fazem desviar-se do obstáculo (eu) como se ele fosse invisível na sua falta de importância no trajecto que os leva aos seus objectivos destinados. Eu olho para o chão enquanto vou andando, não olho em frente, não tenho objectivo onde fixar o olhar, logo não tenho etapas ou passos para cumprir e não ando a direito numa linha e as curvas do meu andar não têm qualquer significado ou explicação, nem sequer uma bebedeira que as justifique, pois à falta de outra explicação, a fulano e a beltrano de tais, ir de caixão à cova ou é rito iniciático em ordem de dado patamar ou comemoração por alguma merecida conquista; já para o que anda às curvas porque sim, é bebedeira de cepa-torta.

Como eu acho que é fácil saber-se que se é quando se têm objectivos a cumprir. Como eu acho que é fácil saber-se que se é quando não se está sozinho. Se não se está sozinho, se se tem alguém, é simples como La Palisse saber-se quem se é bastando olhar-nos como que a um espelho nos olhos de quem está connosco. Dizem então fulano e beltrano que são o reflexo daquilo que fazem e do que os outros vêem em si e o problema que nunca o chegou a ser, porque fulano e beltrano de tais não têm problemas, mas apenas situações, eventos para os quais não sejam capazes de arranjar resoluções rápidas e definitivas (e sempre a única possível), que possam tipificar segundo critérios de classificação e procedimentos estudados de forma a categorizá-los impecavelmente, tendo em conta que cada caso é um caso e as soluções são sempre à medida de cada situação e cada situação com a sua medida tem sempre que caber dentro das categorias de situações que resultaram de muitos estudos e muita organização; etapa superada, relatório arquivado e venha o próximo!

E enquanto vem o próximo eu ainda estou a olhar para o chão, a andar no meu andar às curvas sem padrão, seguindo com o olhar as linhas oblíquas do traçado da calçada portuguesa que só se encontra em Lisboa, na pedra escura de calcário que veio das serras de Montejunto ou d’Aires para ser calcada e calçada em Lisboa, cidade que passa por país que é só paisagem, uma pedrinha pequenina, um pontinho que o calceteiro, que provavelmente já morreu, picou e calcetou curvado de cócoras no chão sem ver o desenho que estava a fazer, como um falsificador a copiar um quadro impressionista enconstado o nariz à tela para lhe contar os pontos e medir a luminosidade do cromatismo, e nestes pensamentos que acontecem enquanto olho para as pedras brancas e pretas (que não são bem pretas, apenas o contraste com as brancas as faz parecer pretas, ou cinzento muito escuras) que podem ser simbolicamente associadas à imagem de um jogo de damas ou, melhor, de xadrez, jogo simbólico da sociedade, como tudo, tudo é símbolo da sociedade e a sociedade pode ser representada por tudo, por sombras ou por luzes, tudo em símbolos e nada em representação real de si próprio, e na deriva do andar pelo passeio a deixar divagar olhos pelas pedras e passos que não sentem o chão penso mas quase me esquecia já que o falsificador que o calceteiro simbolizava na deriva da pedrinha enquanto ponto pontilista não percebia nada do que estava a pintar, ou a copiar, apenas a executar, uma cópia que alguém iria olhar como real na sua superficialidade.

Os fins justificam os meios, dizem fulano e beltrano de tais que passam por mim não me vendo, atravessando-me e deixando-me metade caído contra a parede e outra metada para a berma da faixa dos autocarros que também não me vêem nem têm tempo para parar pois têem horários a cumprir e tempo é dinheiro e não pára, portanto fulano e beltrano não podem parar antes de chegarem aos seus objectivos.

Para mim os fins também justificam os meios, pois é nestes que a vida acontece. Não gosto de fins. Fins são conclusões. Objectivos. São finais. Definitivos. Mortos.

Não sei quem sou.

Acho que nunca vou saber.

Estou vivo, mas não tenho nada que me dê essa certeza.

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