0.1.1

Se tem havido espelho onde eu me possa rever, tenho-o encontrado sob a forma da letra impressa — o vidro reflector não é leal amigo para me dizer quem eu sou, talvez também o preto no branco a cheirar a tinta ou a mofo não seja, mas pelo menos não vejo a imagem invertida que o reflexo me apresenta —

o espelho dá-me imagens definitivas, como instantâneos fotográficos sem passado nem marcas-já não me lembro como é olhar para o espelho e não ver as rugas que me escapam dos cantos dos olhos ou a pele a quebrar-se sob as olheiras-digam o que disserem os iletrados da alma, não há imagem que valha sequer por duas palavras, quanto mais por mil, e eu que gosto de fotografia e me perco a olhar para elas à procura das histórias invisíveis que se escondem entre a gelatina e o papel, atrás de cada grão, daquela dimensão sem a qual manquejam as duas da imagem, a profundidade, ou a ilusão dela —

A memória é a mais profunda afirmação de uma identidade, e quanto mais profundamente se olha para o grão da memória, melhor se descobre a identidade individual que o caracteriza, a igualdade a si próprio do indivíduo. Se etimologicamente, a identidade significa a semelhança, a igualdade, quando reduzida à sua mínima manifestação, ela deve ser entendida como a igualdade do indivíduo a si próprio, que resulta na coerência e na continuidade, resultantes do não esquecimento do passado ainda que este viva no presente e não perca de vista a página em branco do futuro. Mas este branco do porvir tem já as suas entrelinhas escritas, aquelas que já lá estão gravadas para possibilitar a interpretação da vida por viver à luz da vida já vivida. É assim que a vida faz sentido, inscrita ainda que inconscientemente num sistema que põe ao ser a possibilidade de orientação num universo que, de outra forma, lhe pareceria insuportavelmente vazio. Religião, cultura ou religiosidade, sejam quais forem os nomes, estes ou outros, são como pontos de luz à beira de uma pista de descolagem no meio da noite cerrada.

Para um escritor, os pontos de luz às vezes podem ser como pirilampos ou sóis ofuscantes. O escritor reconhece-se nas palavras dos que os antecederam, daqueles que o fizeram sentir sob a pele que as palavras eram o lhe corria no corpo na corrente daquele arrepio eléctrico ao ler certas passagens que pareciam falar-lhe directa e exclusivamente para e sobre si.

Comigo, o reconhecimento foi o de que afinal não estava sozinho na solidão do meu desajustamento, do meu olhar enjoado sobre o que me rodeava ao mesmo tempo que não o conseguia desviar, um fascínio irresistível pelo objecto da minha repugnância. Reconheci que não tinha sido o único a ficar de parte nos grupos da escola, nem a passar as férias de verão sozinho ou a não ter histórias mirabolantes para contar no regresso às aulas, não tinha sido o único a ter más notas ou a chumbar estando bastante à frente dos outros nos interesses e nos conhecimentos e estando-me nas tintas se os demonstrava ou não, e também não fui o único a saltar de trabalho em trabalho ou biscate, cada um pior do que o outro, e só a conhecer broncos que me ridicularizavam por não ser capaz de me peidar como eles ou amandar bocas à boazonas que passavam à beira do andaime.

Se nunca fui como um Bret Easton Ellis, ou um Henry Miller, Céline, Kerouac, nem nunca vivi nada como o que os seus personagens passam, vivi, no entanto, o reconhecimento em mim da mesma essência que lhes dava vida nas linhas das suas páginas. A responsabilidade é minha, mas são eles as grandes referências da minha vida enquanto leitor e os grandes fantasmas da minha vida enquanto escritor. E tal como um filho em relação a um pai, sinto ao mesmo tempo a responsabilidade de lhes seguir as pisadas mas a angústia de não querer fazer o mesmo que eles, nutrir-me deles e deixá-los para trás para seguir a minha vida. Talvez eu o esteja a tentar fazer neste momento, mas o reconhecimento da minha identidade, obriga-me a olhar para o que está atrás de mim, pois é de trás que começa o meu caminho.

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