0.1.2

A memória. Para mim a memória é um fluído. Se tem existido uma imagem com a qual tenho associado a memória, é a água. Na verdade, um dos nomes de trabalho de um das minhas séries de textos e notas que gosto de sonhar em ver um dia transformados em livro é Memória de Água. Mas isso são contas de outro rosário. O que me tem levado a escrever sobre a memória é, essencialmente, a busca da identidade, porque esta não pode existir sem a primeira. Identidade não é mais do que a imagem que fazemos de nós próprios com base nas nossa próprias memórias, o que justifica a fluidez da imagem com que nos vemos ao longo da nossa vida. Não que nos vejamos em constante mudança ou adaptação, pelo contrário. Mas em vez de generalizar como se tivesse lançado à escrita de um tratado, talvez seja melhor escrever partindo das minhas próprias memórias e das minhas imagens. Afinal de contas, a escrita é tão pessoal como a memória.

Como eu estava a dizer, a memória para mim é fluída. Mas tal como eu estava para dizer, não acho que a memória seja um fluído em constante movimento, se olhada de perto. Só à distância é que consigo ver algum movimento nas imagens da minha memória, como fotogramas estáticos numa película de filme. Dificilmente alguém olha para si sob a luz da inconstância, e comigo não é diferente, porque isso poria em causa a estabilidade e a coerência da minha personalidade. Como se uma personalidade tivesse menos valor ou perdesse a sua força estando sujeita à única inevitabilidade da vida, que é a morte, e para a qual somos irresistivelmente atraídos pela contagem do tempo. Mas estarei eu, ou estará alguém, mais vivo por negar a essência da própria vida? Como se fosse possível alguém reclamar para si o facto de estar mais ou menos vivo… Não será essa negação um chamamento do fim da vida, uma declaração inconsciente da vida? E no entanto, eu passo a vida a fazê-lo e, da mesma maneira que é tão dificil aceitar a inevitabilidade da vida conter a sua própria negação, é também difícil evitar a generalização contida na observação deste facto na maioria das pessoas. (Poder-se-ia questionar aqui o que é a “maioria das pessoas” e o seu significado, mas essa questão fica para depois).

Quantas vezes dou por mim a pôr em pratos de balança as imagens estáticas e sem profundidade das personagens que tenho que assumir socialmente ou profissionalmente em oposição às minhas livres vontades em mandar às urtigas todas essas representações e deixar-me andar ao sabor da veneta? Quantas vezes já dei por mim a pensar em momentos críticos da minha vida sobre a falta de sentido em manter uma situação apenas por uma questão de coerência comigo próprio ou por necessidade de sobrevivência? Quando é que a linha entre a convicção e a obstinação cega é ultrapassada?

Posso parecer longe da questão da identidade e da memória, e mesmo eu chego a este ponto a perguntar-me como é que aqui cheguei, mas neste pequeno apeadeiro apercebo-me que estou parado sobre a plataforma onde eu me pergunto se sou mestre-de-obras, arquitecto, engenheiro ou trolha na construção da minha identidade e da utilização que faço das memórias que tenho comigo, e apercebo-me que só afastando-me e deixando-as paradas e não lhes mexendo conseguirei descobrir-lhes algum sentido e significado.

Tal como o artista que atira com os esboços da sua obra para um canto da sua oficina para um dia mais tarde voltar a olhar para eles com o afastamento do frio tempo, em relação à vida das memórias só a idade de quem as viveu permite voltar a elas sem as certezas absolutas da juventude para as questionar e ter tempo para esperar pelas suas respostas ou pelos seus silêncios. Quem é que liga às memórias ou tem dúvidas na juventude? E quantos não as têm quando a juventude já é ela própria uma memória?

Neste momento da minha vida, a juventude é para mim uma realidade, mas que é desmentida pelo espelho a cada vez que passo por ele, o que me leva a concluir que a memória é a mais conservadora das qualidades e também a mais enganadora. Quase nos quarenta, vivo de acordo com a minha memória, que é a de ser jovem, mas fico chocado quando sou tratado por você por miúdos de vintes e poucos, choco-me a mim próprio quando me refiro a “miúdos de vintes e poucos” e uso expressões e tenho reacções dos “velhos” com as quais me antagonizava.

As memórias são estáticas, são conservadoras, são como fotografias de comboios que ficam parados eternamente numa estação no meio de baforadas de fumo de carvão enquanto o verdadeiro comboio já desapareceu ao fundo da linha e as nuvens já se dissiparam há muito tempo. Mas a memória (o conjunto dessas fotografias, tornadas fotogramas numa película contínua de filme) é fluída, a sua projecção gera movimento que deixa compreender e relativizar essas pequenas imagenzitas paradas umas entre as outras. Como o vôo dos aviõezinhos desenhados nos cantos das páginas dos livros da escola que depois desfolhava rapidamente para ver o filme do caça de guerra a aproximar-se de mim numa cena de bombardeamento da 2.ª guerra mundial. Não sou suficientemente velho (ainda bem) para já ter um filme da minha vida e também nunca o vou conseguir ver, mas já tenho tempo de vida suficientemente para poder apear-me durante alguns instantes e, tal como um documentarista, poder ver as gravações que já fiz. Não tenho o filme todo, nem nada montado, mas já dá para ver a relação e o sentido que se eleva dos planos que estão filmados até agora.

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