1.

Primeiro apareceu a C., mas logo a seguir esteve mesmo a morrer, mas aguentou-se, não sem antes ter sido baptizada à pressa, não fosse a alma ser entregue ao Senhor sem que lhe tivesse sido encomendada. Mas alguns meses logo a seguir morreu-nos uma pessoa, o Pessoa, mas este foi em Lisboa, enquanto ela se aguentou com as unhas na vida, na Portela da Ramalhosa, freguesia de Alvorninha, concelho de Caldas da Rainha, distrito de Leiria, neste rectângulo português a escorregar pela Europa abaixo com o mar a salgar-lhe as fraldas.

Depois apareceu o H., mas não esteve a ir-se. No entanto, ainda não se tinha em pé nas pernas, e já tinha sido desmamado das tetas da terra para Lisboa, forçado a deixar Albergaria-a-Velha para trás, concelho e distrito de Aveiro a escoar-se pela ria até ao Atlântico e ainda sem a pestilência de Cacia. Passado pouco tempo não morreu ninguém que se possa dizer o nome, mas nem um ano depois a Alemanha tinha invadido os países à sua volta e a Anschluss estava concluída. Morreram muitas pessoas, o que torna desnecessário falar no nome de alguém ilustre.

C. sobreviveu mas foi desmamada cedo das tetas amargas da mãe e passou infância e adolescência a ajudar a criar os irmãos e irmãs que lhe foram aparecendo até ter dezassete anos, instalada em casa dos avós alguns metros mais abaixo, suficientemente longe para desamparar o espaço na casa paterna, mas suficientemente perto mas meter as unhas à terra todos os dias desde o sol da manhã até ao luar do fim de tarde. Até que se meteu ao caminho e foi servir para uma casa de família no Cadaval, depois para outra, até que de casa em casa e convento, deu consigo em Lisboa aos vinte e poucos, onde ainda analfabeta fez a quarta classe à noite, e aprendeu a juntar as letras e a deixar de usar a impressão digital como assinatura. Pelo convento, as suas portas não se abriram para a acolher na casa do senhor enquanto serva e foi forçada a continuar a sua caminhada pela vida secular, por falta de vocação constatada pelas irmãs.

Por esta altura H. já se tinha tornado num homem, passando pelas fugas dos tamancos de madeira da mãe, peixeira de canastra à cabeça pelas ruas a raiarem da ribeira pela madrugada à chegada das traineiras ao Tejo e dos carros da lota. Do pai, mal sabia dele e um dia, tendo sido recambiado para casa dos avós paternos no Sobreiro, à saída de Albergaria-a-Velha na direcção de Aveiro, chegou-se à avó perguntando-lhe quem era “aquele homem de saias” referindo-se ao homem que acabara de lhe dirigir a palavra aparecido de surpresa embrulhado numa gabardina, ao que ela lhe respondeu, perguntando-lhe “Atão ‘Librandinho, já não conheces o teu pai?”, deixando-o perante o irreconhecido progenitor. A mãe, essa tinha-se casado com o homem que viria a ser pai da sua irmã mais nova, a quem iria partir o mealheiro para ter trocos para as suas saídas iniciáticas da vida de homem aos doze anos, começado a trabalhar como aprendiz de tipógrafo, nas artes de compor texto e gráfico com tipo móvel de chumbo do componedor para a galé, lido e revisto de cabeça para baixo e em negativo. Aos dezanove estava já casado com aquela que viria a ser mãe dos seus dois primeiros filhos, a filha cujo nome era o da tia e o filho cujo nome viria a ser o do pai. Por apelido legar-lhes-ia, não o patronímico, mas sim o penúltimo, o que toda a gente usava no tratamento, por ininteligibilidade do próprio (como pode ser visto no tratamento da avó ao netinho), e que coincidia com o mais vulgar dos apelidos arbóreos de cristão-novo da língua portuguesa, só comparável ao Smith inglês, e cuja inicial marca lugar em forma de cornucópia entre o meu primeiro e último.

Entretanto, a guerra colonial passou de ameaça de revolta dos países colonizados para conflito aberto. H. livrou-se por já ser pai e ter cumprido o serviço militar antes do início, mas ainda foi dado como refractário, por ter sido chamado de volta ao exército e não ter dado qualquer resposta à ordem de reincorporação. Safou-se por pouco de ir para a África, depois de ter estado tranquilamente a cumprir tempo de serviço nas oficinas gráficas da Academia Militar, ali à Gomes Freire, onde ainda está instalada. Mas África esperava-o no destino, tal como no de C. também já estava escrito.

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