Memórias

Há memórias e memórias. Há memórias daquilo que se viveu e essas são como livros numa estante, sabe-se onde elas estão, ao que dizem respeito, consegue-se situar o acontecimento ou os acontecimentos que lhes deram a origem numa sequência de eventos, o dia em que aconteceram, talvez a roupa que tinhamos vestida nesse dia, com quem estávamos e onde, e às vezes a recordação é tão vívida que quase conseguimos lá voltar e sentir o ar que corria e os cheiros e a temperatura à nossa volta e ouvir os sons e as vozes daquele momento inesquecível. A memória é também como uma fotografia recortada de uma revista, afastada de tudo o resto, descontextualizada, e à distância, já mal nos conseguimos lembrar qual era a revista, provavelmente já deixou de ser publicada e era de má qualidade, as palavras partidas na parte de trás são um borrão de um artigo desconhecido e sem interesse tanto no tempo da memória como no da publicação. Fora do contexto da sua origem perde raízes e deixa de ser qualquer causa ou efeito da realidade, é apenas sem qualquer justificação para lá da sua existência inconsciente e que aparece sem qualquer razão quando lhe apetece sem ser convidada ou procurada.

Uma das minhas memórias é de estar um fim de tarde sentado sobre uma pedra com a minha primeira namorada na zona da casa dos meus pais, a olhar para o campo a descer em direcção às localidades lá ao fundo das encostas dos montes e a pensar em voz alta com ela, sonhando acordado um sonho que gostaria que fosse o nosso, o de estar um dia assim com ela, os dois velhinhos no alpendre de uma casa no campo a olhar lá para fora e com as memórias de uma vida guardadas entre nós na velha casa na arca dos nossos anos em comum. Estavamos ainda os dois a chegar ao fim da nossa adolescência, sonhávamos em casar e ter filhos e vê-los crescer e plantar um jardim com o espaço dos dois. Hoje quando penso nela admiro-me da quantidade de anos que já passaram desde a última vez que estivemos juntos e à distância que me encontro tanto dessa juventude como da perspectiva de realização desse sonho amoroso. Ainda assim, com a certeza de que para a primeira não existe volta a dar, para a segunda resta ainda a possibilidade pelo simples facto de que à vida ainda lhe restam caminhos para chegar a qualquer lado, a esse ou a qualquer outro. Pelo sonho em si, esta não é uma memória fora do vulgar, quantos já não tiveram este mesmo sonho da chegada a uma velhice feliz com a sensação da missão cumprida e do merecido descanso a gozar os anos que restam com um sorriso na alma e de mão dada com o amor de sempre. Mas vulgar ou não vulgar é a memória do meu sonho feliz.

Outra memória, também de um sonho ou de uma expectativa, é aquela de ser criança e adolescente imberbe de buço a despontar, imaginando a vida que teria enquanto crescido e a independência que essa condição de adulto me traria: não dar explicações a ninguém, não ter que obedecer a pai nem mãe nenhuns, ninguém a mandar-me ir para a cama ou despejar o lixo ou fazer trabalhos de casa, não ter horas para chegar a casa, não apanhar ralhetes ou tabefes por chegar a atrasado ou dar ralações ou aparecer de roupa suja ou rasgada da rua, ter o meu dinheiro para as minhas coisas e não ter que pedinchar e ouvir que não ou ter que esperar pelo que eu queria. Tudo isto eu teria quando chegasse a adulto e essa era a minha convicção de miúdo e a observação que eu fazia do mundo dos adultos, homens feitos de barba rija e mãos nos bolsos e queixo erguido sem ninguém que os dominasse ou lhes mandasse fazer o que não queriam fazer. Não me lembro de nenhum momento específico em que fizesse esta observação mas anos a crescer e a esperar impacientemente pela chegada à idade adulta foram suficientes para construir esta imagem acabada do que seria ser homem um dia e, de certa forma, ainda continuo à procura da concretização dessa expectativa sem que alguma vez tivesse encontrado algo que se lhe aproximasse.

Uma e outra são memórias de um futuro por realizar.

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